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terça-feira, junho 16, 2020


Sujo, cheiro a morto, tenho preferido isto, evocá-los assim, sem me lavar, parece que está mais alguém comigo, tenho coceiras que alastram como pensamentos asfixiantes, não sei bem onde um se coze ao outro, os dias tiram-me estranhos retratos, tenho uma ferida, uma gangrena que me exige sacrifícios rituais, arranco peles, frases vivas, impressões puxadas a frio, parece-me que, debaixo da pele, os ossos não aguentam a luz. As letras têm o peso de ferros, arrastam os pés, as correntes entre elas ajudam a fazer um bom barulho, sou o mais ruidoso que posso, busco entre as ferramentas, espalho-as, tudo em contornos brutos, rabos à tona, um bater de barbatanas na água, aquece-me a prosa, as copas do arvoredo ondulam, afixo em letras graves avisos absurdos, a ver se não me espreitam, aqui, um sítio onde os anjos se recusem a entrar, mesmo os obstinados, e a razão por que bebo tanto é que tento dissolver o girassol que se me pôs na garganta, as pétalas morrem, enegrecem e só depois consigo cuspi-las, leio biografias de pintores, os que menos se importavam, com a corda da época a estrangulá-los, vê como este ainda lavra a tela, aquece-a com o hálito, viu qualquer coisa, vai deixar-te morrer à fome se não conseguir puxá-la, os nervos lacerados, a tinta passando a língua sobre os lábios lacrados só piora, estão ali uns séculos perdidos, aproximam-se os apreciadores, um ou outro negociante, mas está fora de questão, não tem nada que sirva de conforto às bestas, talvez algum desgraçado pressinta que é com ele, quando o mundo recobrar os sentidos, uma camisa de noite exumada, um apetite alimentando-se de si mesmo, com aquele corante de asas esmagadas, a sugestão de uma paisagem cuja carne foi já roída pelo delírio de tantos sóis, o cavalete desfeito, a memória de um talento em que se encostar, uma mancha que te diga onde bater com a cabeça até reavivar o antigo brilho, uma chama, uma expressão firme para esperar o fim.

quinta-feira, maio 28, 2020


Que canta a folhagem e o que te diz
que lembranças nessas coisas que fazes
ou tomas para teu eterno gozo
corpos que exaustos reformas
num sopro atravessados
enquanto a manhã engole a noite
encaroçada de estrelas
e que experiência dos gestos tu tens
como armam e desfloram
com que talento reviram em prazer
em sons invertidos, de tal modo que o tempo
a ti exibe a sua corpulência
amassando odores na terra ansiada
e quando nenhum sol deixava uma imagem
nenhum cadáver fresco ao seguinte
de que mundos eram feitas essas partes expostas
colheitas, frutos que se nos esmagavam
nos bolsos, de um corpo a outro
a linha com que inventas, mudas
o velho soneto, quebras-lhe os ossos
espalhas, cortas nele flores ainda sem nome
e nomes tão fundos que nos enterram
essa tinta que de tanta chuva
e do ruído das águas
do que se animou nas superfícies
do que se colhe nas redes do cansaço está viva
de como brincas sacudindo o lenço
das alusões antigas, comovendo o ar
espreitando os que se deitam no campo co'as moças
queixas e gritos, risos, tudo me lembra
o verso que te ouvi e o mais que te roubei
as sombras por que foste conhecida
antes de ir buscar-te a casa dos teus pais e depois
quando te enredava o cabelo nas molas da cama
eras nova, só usavas então uma máscara
cada dia viajávamos um pouco
estudando juntos pesando na língua
separando miudamente em notas
e havia ali embalo, música e que aspiração
os elementos, cabos tensos, cordas
tantos nós, tudo rouco dos temporais
e um navio na praia em destroços
inspirando um coro de pássaros.


terça-feira, maio 26, 2020


Farta deste pardieiro, de mim, até da cidade, que nunca esteve melhor cotada nos guias turísticos, e que desaparece, pela última vez, jura, e eu lembro-lhe que não pagámos a renda, que está aí o fim, mesmo que seja só de outro mês, alguém chora, não necessariamente um de nós, nem o tempo hoje se define, no verão via-a de cara na parede, às vezes a conversa dava cabo de tudo, bastava isso, já preferia por tudo que se calasse, que não abrisse mais a boca, tão sensível, apertava os longos casacos andando de braços cruzados, fez-me descobrir o silêncio como oração, como praga, antes, se tivesse dito estas coisas, partia-lhe a cara, mas hoje desinteresso-me da nossa história, oiço-a de longe, parece-me que o mar é mais forte, ou sou eu que estou morto, venho cá lembrar-me porque podia ser bom mas, também, porque não era para mim, terei deixado muito pouco além do regozijo desses que pareciam pensar que a vida seria mais fácil sem gente como eu. Gente como eu? A morte é a única coisa que esta gente bebe. Eles ficam e nós não temos escolha. Debaixo de um mesmo lençol quantos amantes tiveram a lucidez de trocar o veneno pelas tristes promessas tão vazias? Talvez seja da época. Alguém nos garante que não se pode encontrar ninguém que nos ame. Aquece entre as mãos esse gole de neve e bebe-o. Não se perde já ninguém. Pelo menos isso, não há o risco de ela pertencer a outro. O mundo que resta é um eco. São tantas as evidências, e tudo nos diz que a virtude se tornou inútil. A gentileza é uma atitude pagã. Os religiosos são insuportáveis. Os amantes são belos mas frios e tristes como estátuas a que faltam bocados. Em breve, quem disser uma palavra já falou demais. As línguas terão o gosto da areia nas nossas bocas. As nossas flores veneram túmulos e estão deslocadas em qualquer outro lugar. As horas estão cada vez mais pequenas, a luz vem sempre com algum comentário trocista. Ou inventam ou exageram, de outro modo não têm nada para dizer sobre o amor. Nos poemas ainda se fala de mel, por vício talvez, porque as abelhas garantem que não foram elas. Nem mais uma colher para este mundo.

segunda-feira, maio 18, 2020


Numa casa cujas regras é a estupidez quem as dita, não se pode esperar que a inteligência faça a sua vida senão de forma clandestina, e por mais empenhada, ou até subtil que seja a tua persuasão, o fracasso será a única história que tem para contar, ainda que o faça com uma serenidade quase heróica, uma alegria de contemplar o passado como algo de que é bom ter-se livrado, afinal, mesmo que não fosse de se esperar que os anos tratassem de deixar o lixo lá fora, pronto para ser recolhido pelo camião do esquecimento, mesmo assim a vingança poderia servir como um longo epitáfio musical, um banho de sangue antes de se sair de cena. Mas para isso seria preciso que te desses essa tarefa e soubesses coagir-te durante uns meses, pelo menos, a cumpri-la com esse rigor que algo que se retoma a cada dia extrai de nós. Simplesmente falta-me o interesse, e qualquer ataque, por mais selvagem ou metódico, fulminante ou exemplar, seria um acto de crueldade que acabaria por me ser reconduzido. Desde logo, porque ao ser levado a pensar nisso, não me lembro de que estivesse lá mais alguém. A partir de um certo ponto, um excesso de consciência apenas nos garante que só uma igual medida de solidão poderá rever as provas, ou mesmo ler com alguma compenetração e perceber, para além do que disseste, isso que é essencial e que falhaste na hora de o vincar claramente. Lembro-me menos da verdade por si do que como um desvio de ficções que se me lançam ao caminho, a vida, afinal, tem um modo bastante desonesto de baralhar as cartas, e eu habituei-me, até por inércia, a interpretar os sinais, tornei-me um repórter desses que, à falta de personagens de carne e osso que possam conferir algum sentido de urgência ou mesmo vertigem à história, puxam do caderninho e pedem ao vento declarações, entrevistam os seus próprios desvarios, dão aos objectos, na sua relutante expressão, no seu desinteresse em prestar testemunho, um pequeno empurrão, e assim se sabe como as coisas deviam ter-se desenrolado se a vida tivesse tempo de desenvolver uma admiração pelos romancistas russos, saber-se-ia como à corda faltou o vigor e até a convicção para ser piedosa com aquele que já antes tinha tentado matar-se, como o fez depois, à fome, sujeito à depravação, acabando por se despedir numa longa noite dessas em que nos entregamos ao magnetismo do que não nos deixa saída, e, assim, interessa-me a perspectiva dessa corda que não provou ter carácter e estalou ao sentir-lhe a pulsação contra as fibras. Também gosto dos frascos de comprimidos, dos reguladores de acidez, atenuantes disto e daquilo, gosto desse tumulto indigesto à cabeceira, esses sinais de um sono que não sabia manter o saco às costas e fazer a travessia de uma só vez, mas tinha de ter a sua própria novela, uma obstinação de porteira praguejante, aproveitando tudo para puxar do rosário, até para se envolver em discussões absurdas com as outras. O dia seguinte quer lá saber, e, por isso, dá jeito encostar o relato à vitalidade desses que dormem até na véspera de batalhas impossíveis, assim, a ele peço fiado, dá-me de outro a convicção para encostar a página ao fôlego de quem primeiro rasgou estes caminhos, e então eu oiço-me, como um bêbado repetir um arranque como se fora uma canção dessas que já ciscaram céu e inferno, e sem conseguir conter-me dou início à história dos meus primeiros passos por esta vida, preciso sobretudo de recomeçar do zero, e aquilo a que me nego é a levar a coisa para lá de um certo ponto, saldar este fiasco, pôr a limpo os antecedentes desse ódio que me embalou desde sempre, explico-me mal, dou os sinais de uma terrível ressaca, estando tão longe do amor, a escutar o seu rebate em terras longínquas. Se nos faltarem motivos desse quilate, temas nobres, por esta altura podemos sempre virar-nos para o desastre de uma forma qualquer de abnegação, algum tipo de privação, a fome de Hamsun é um exemplo, uma dor de estômago que fale rispidamente contigo, uma úlcera mais doentia e malévola que uma possessão, como a de Bernhard, destituindo as coisas do seu senso, emparedando o mundo no seu ridículo cerimonial, o desastre, quando se pensa nisso, quando se pensa como satisfazer algum apetite podia fazer a diferença, é como logo nos damos conta de que não se consegue comer o raio de um bife decente nesta terra, e, assim, nos entregamos a alguma busca inconsequente, agora que a paixão já não move ninguém, e perder tempo com isso seria como esperar do leitor que acompanhasse a trama com um zelo e um sentido do decoro vitorianos, e é por isso que ninguém insiste na épica, já que os próprios leitores, como ratos, conseguem fazer-se embarcar e aos seus juízos, e enquanto te diriges para algum porto da antiguidade, no porão, roem tudo, infestam os víveres, acabam por levar a tripulação a um motim, e só resta esse bote em que te largam com os teus cadernos, enquanto tiras à sorte um destino, e te preparas para naufragar num juízo demasiado mudo, instável, numa derrota tocante que, na melhor das hipóteses, talvez possa deixar-se acompanhar ao piano.

segunda-feira, maio 11, 2020


Uma pedra paira sobre a página
a chuva levanta um mundo debaixo deste
desapareces, tudo sufoca num sentido literal.
Em tempo de traição - escreveu ele
com o queixo partido e querendo dizer outra coisa -
as paisagens são belas.
O terror tem um efeito incomparável.
A flor que à mulher de outro se dá,
e como vive muito para lá do que seria razoável
tornando-se impossível de explicar.
Deve haver também uma tradição para isto
as fotocópias que tiro das fotografias
que não pudeste dar-me
corpos que se arrastou para lá da razão
escondidos como crimes entre versos
postos de lado para não causar escândalo.
Em louvor do comedimento imagino
o que seria preciso fazer de um cadáver
para o encerrar perfumado num soneto.
Desfizemo-nos de efeitos rápidos
mas não se consegue acabar com o mundo
a caminho da cama de um quarto de hotel.
Emoldurei o mandato de captura,
mas teria preferido ler o relatório e a perícia,
que encantamento foi usado como prova.
O teu reflexo preso no espelho diz qualquer coisa
é um gelo e torna o quarto visível dentro da noite
a máquina decomposta sobre a mesa
as teclas arrancadas como dentes
um rumor doloroso que envolve tudo.
Chega de noite invariavelmente
quem se serve deste caminho abreviado
de passos que devem mais à música
do que a um destino
que dão as voltas necessárias
para fazer da idade um castigo
lá onde esperamos que Deus nos arquive
onde mora o tempo de boca aberta, onde tu
espalhas os ossos ao longo de um eco
para o corrigir, ter a certeza
das palavras e do que dirão de nós
sabendo como fomos longe demais
até serem as palavras o que de pior pode haver.
E assim e contra a pedra solta dos monumentos
ir adiante até esgotar a língua,
provando que estávamos à altura
das coisas que dissemos um do outro.

segunda-feira, maio 04, 2020


Dá-me qualquer coisa de beber, preciso de ferver estas merdas que se me agarram, tenho a pele como um mapa, ameaçando desfazer-se, de tão aberto, de tanto lhe implorarem uma orientação que faça sentido disto, esta porra, linhas fundas como rugas, o leito de rios secos, países já defuntos, desaparecidos, anexados, os antigos tesouros devassados, é uma ideia de aventura que se perdeu, hoje, estes daqui só discutem a dieta, e pouco lhes interessa as advertências dos tipos que começaram por imitar, quando se davam ao trabalho, quando as dificuldades não lhes metiam tanto medo, não reagiam como um bando de covardes arranjando-se com desculpas, de que adianta que o outro insista que "um escritor deve ser lido e não visto", ou que nos adiante aquele que o melhor, entre tantos carrascos inexperientes e desajeitados, o melhor será ir já antecipando o fantasma, enquanto isso, talvez por causa do frio, sentimos os pulmões dilatados e uma fome espantosa, temos de nos recolher, de nos sentar nalgum lado, não é verdade?, numa cadeira que aguente connosco, tem de haver uma certa boa vontade, podemos ficar à espera um longo tempo, a preparar o silêncio, nesse estupor da língua, isto até que o golpe frio do aço verbal se insinue, para logo rodarmos a faca nessa massa inchada, orgulhosa, enquanto isso, apuramos mecânicas musicais, é a isso que teremos sempre de voltar, à música, mesmo que o ouça já barafustar, a pele fica-me demasiado larga, lá vai ele, a falar sozinho, gravando ordens de si para si mesmo, frases curtas, frases bruscas, boa parte incompreensíveis, devaneios, grunhidos, fala-me do seu projecto, compara-o a autopsiar um colibri, visualizo tudo isso, com a lua a cair fora de lugar como no haiku, um tipo rasgado aqui e ali por surtos de precoce senilidade, devorado por remorsos, por se ter sentido, na sua juventude, tão confiante nos seus poderes de percepção, tentando resgatar as páginas da única coisa de jeito que escreveu, um romance apaixonado sobre uma mulher que o deixou pouco depois, e que ele, supondo que assim se vingava, queimou, como se fosse a ela que roubava a melhor hipótese que tinha de ser lembrada, tentando agora recuperá-lo, pondo um preço na alma, cada vez mais baixo, desfazendo-se dela aos poucos, incomodado com tudo, não se deixando desviar ou seduzir por qualquer sugestão nova, um parágrafo inusitado, recusando tudo o que não seja um eco perfeitamente coagulado, convencendo-se de que, mesmo que o original estivesse definitivamente perdido, seria capaz de criar ao menos uma reprodução bastante fiel, tornar-se um imitador escrupuloso, voltar a encontrar através da memória de um texto perdido a melhor ideia que fez do amor.

domingo, maio 03, 2020


Quando já não esperávamos, vimos a saber coisas de nós próprios ou de algum antepassado a quem, por razão de uma enfermidade absurda ou por o azar se lhe ter aferrado com uma sanha prodigiosa, nos sentimos ligados, muito próximos, não que pudéssemos fazer alguma coisa por eles, ou sequer por nós, mas não deixa de ser grato ouvir falar de si na terceira pessoa, no tom que se reserva a esses de quem apenas se diz que conhecem os nomes dos pássaros, de tantas plantas, que usam uma linguagem inconscientemente sensual, por isso, perdoem o hábito de se transferir, trocar em pequenas ficções o que lhe acontecia, quem se lhe chegava. A uma mulher nova, que não estivesse de sobreaviso, dar-lhe o nome de um mês, uma cidade que nunca se viu, antecipar-se a tudo o que possa desenrolar-se, até para salvar a pele, esquivar-se, ser um amante desses premeditados, ostensivo nas declarações, frio, capaz de se desinteressar como quem vira outra página de um romance enfadonho, na esperança de alguma peripécia, mas, genericamente, se lemos é por reconhecermos que estamos em falta, queremos o juízo de outro a colar os cacos da vida, a respirar-nos ao lado, desafiando os nossos sentidos, abalroando-nos, e há mesmo um desejo de ser o outro quando se toma as palavras da sua boca, o peso particular, essa raivosa expectativa, a frase segue rouca, cheia de cuspo nos cantos, asmática, a resvalar ameaçando perder a voz e o juízo, escuto-o perto de mim, não que esteja, mas do balanço da hora, parece. 2 horas da manhã, cela dos condenados do costume, e antecipo-me, redijo-lhes obituários, leio-os alto, dou-lhes outras vidas, enfebreço-os, mas se houvesse morte, que poupança de sofrimento não se faria. Bandos sobre bandos, unidos num fôlego sem futuro, desmontam o inferno, esse que é a união dos esforços da cambada de imbecis de que nos vemos cercados, e que nos isolam, às vezes com espaços e através de tempos sem nenhum sinal de misericórdia, querem-nos desconfiados, mãos nos bolsos ou dentro da pele, a sentir os ossos, falando sempre de outra coisa, trazendo à baila irritações cuja origem não nos é possível determinar claramente. E, às tantas, deixamo-nos convencer de que nem somos de cá, apenas visitamos a realidade, passamos perto, numa órbita qualquer, e ouvimos falar dessas coisas que tanto vos comovem. Inclinam-se terra e estrelas para as coisas que contamos, algum fôlego correndo, mijando-se pelas pernas, e a gente treme e reza, se me dão papel, ponho-me a sonhar, as coisas vão-se amontoando, dossiers a abarrotar de notas e esboços, os mastins da imaginação farejando tudo, para devassar a constituição do real. Por aqui, "os sinos tocam debaixo de terra", encontram nos ossos um desenlace, um meio de trazer à superfície, sob a forma de tremores, antecipando os pesadelos que iremos roer pela eternidade fora, dando música aos vermes. Estudar nos dois ou três que nos falam desde uma língua perdida, e que remontam às origens a ousadia desta porra degenerada, os planos de um mal que pudesse ter feito alguma diferença, ou as histórias de cabeceira que contam, com a voz embargada, esses que se deixam por aí a fazer a cama num piano, em exercícios irritantes, cheios de veemência, esses que nunca saltam uma nota e estão sempre disponíveis, só tem mesmo a roupa que trazem no corpo, a prosa desastrada com que contam trivialidades ou os acontecimentos que os transtornaram para sempre, e que, de um salto, se põem a caminho, fazem-nos companhia na hora em que um bom destino é qualquer coisa que nos deixe ir pelo corrimão, sem voltar a erguer a vista sobre esta terra que nem um nome merece.


Desde o início provido dos sacramentos
de morte
jornais, tabaco, aguardente
cubro as superfícies, torno-as vivas
devolvo-me um aceno apanhado num reflexo
nesse pobre retrato onde nem a sombra é viva
e as árvores pouco se mexem
mas do fruto um peso decidido vem
saber dessa mão, a volta que lhe dás
e de cada queda a colher é cheia
estende-se abrindo a sílaba
para que dentro se precipite a ousadia
da paisagem toda
o que debaixo da unha do verso respira
na afinação cósmica do trabalho relojoeiro
este afundar-se rodando como um prego
na doce pobreza que nos define
na translação dos quartos, a mulher
num sono leve que nos revira
ou terrivelmente nos falta
pois se a memória lhe perde o sabor
nós já não, nunca nos deitámos juntos
e mesmo que à pressa agarre o que possa
me raspe quantos fósforos ou estremeça
de um gotejar trôpego
não resulta
não há, não vejo tradução, o chão falta-me
e as notas que tomei mal se deixam ler
a vida torna-se antiga, frágil, sem gosto
alguém mo disse, de como assistem
ao seu próprio mistério os velhos poemas
inúteis do ponto de vista ritmíco
tão feios antes orgulhosos vibrando
de terem tocado na corda a beleza húmida
mas se nem passos de gigante
fazem ceder as frases
na canção que se prendeu as dádivas eram frias
não a ponta só mas toda a língua ardida
e que baixo isto, que frio, vê-se a respiração
pelo meio os ramos desenhados a árvore cresce
num sufoco reclamando de volta
o fruto comido lá atrás.


sexta-feira, abril 24, 2020


Isto são fragmentos lidos em voz alta de um romance recusado inúmeras vezes, pelos editores todos, pelos amigos que já não querem ouvir falar na coisa, eu mesmo já me livrei dele tantas vezes, deitei pela janela, aos capítulos, em dias diferentes, reguei-o, puxei-lhe fogo, deitei ao rio, e o desgraçado volta, palavra por palavra, não me dá outras, se risco até rasgar as folhas, os personagens cruzam-se lá em baixo, gritam-me das escadas, tenho uma que nem mora no prédio mas toca-me à porta para pedir salsa, merdas assim, na rua, pedem-me as horas, no autocarro, vários levantam-se para me dar o lugar, como se fosse uma grávida, a vergonha umas vezes, outras sou eu que me deixo embalar pela hipótese de ficção, descomponho-os, pego neles pelo colarinho, sacudo-os, dou-lhes umas taponas, logo sinto cá umas dores de estômago, e nas cruzes, raios, como a espinha de um livro que se descosesse, mas por muito que lhes faça, por mais que abuse, tudo é perdoado, voltam como amantes obsessivos, em pedaços soltos e desconexos, fúrias delirantes, sepultam-me em cordialidades, é um mosto, uma coisa acre, convulsa, finjo que não ligo, nem é comigo, como quem vê passar uma procissão, esse luto que sai para desabafar ou, em dias piores, desancar alguém, ao acaso, dirigem-se a mim, em todas as ruas sou cúmplice de uma porra qualquer, se algo se passa não me deixa sair de fininho, mãos nos bolsos, oiço o meu nome por tudo e por nada, cada cabronice, cada sarilho, e lá estou eu entre o rol das testemunhas, a menos que esteja com os réus, tenho uma camisa a meias com outros dois gajos, dormimos sobre uma mesma mesa, tudo se confunde com o relato pela rádio, já com décadas, de uma qualquer guerra imaginária, um conflito cancelado a tempo, dizem que nos poderia ter devolvido o mundo, projectam todas as fantasias nesse embate que tinha tudo para acontecer e depois foi desmarcado, mas parece-me que só a mim me chegam notícias da forma como evoluiu, para lá de toda a sanidade, como uma composição musical que se aproveita de tudo, o que houver serve, consumindo todos os ritmos, assim, também me rendo, faço de tudo para evitar as linhas de acção centrais, ponho-me à margem, como um escriturário, vou redigindo numa caligrafia miudinha, cuidadosa, típica de um covarde, de um revisor de provas, imitando um desses seres que trocaram o espírito por picuinhices e que se empregam em funções menoríssimas, estou a pensar num em concreto, um dia mato-o e fico-lhe com as roupas, uso uma cabeleira, as cãs dele, o sorriso imbecil, continuarei redigindo o seu caderno de ofensas recebidas, agravos, abusos de toda a ordem, e a coberto da exasperante minúcia dos cuidados a que me darei, hei-de exercer o ofício de rogador de pragas, e não deixarei de cuidar da mãe dele, mulher com quase duzentos anos, borrifo-a, troco o ambientador, prosseguirei nas funções de confessor-geral desses literatos amorfos, cheios de si, absolvendo-os das pulhices, das pobres intrigas de que se ocupam, viverei deliciado com a minha farsa, protegido pela fé deles no cura que lhes lê de volta os seus livros de horas, rindo-me à socapa, como todo o delator, depois só repito as indicações e ordens desfavoráveis à causa, rezando eu próprio para que se danem todos, o quanto antes.

segunda-feira, abril 20, 2020


Vamos lendo na cama, remando um pouco, pasmados, e muitas coisas se dão ao mesmo tempo, mas, por mais exaustos, recusamo-nos a cair na narrativa, a deixar que nos puxem para si essas correntes, esses modos de sucessão, e antes preferimos aguardar que os grandes arroubos históricos atravessem o rio, deixando-nos em paz. Na altura certa, consagrados aos nossos ritmos arcaicos e primitivos, haveremos de cuspir o nosso sangue mais longe, e persistir, misturar-nos a tribos já extintas, numa mestiçagem dolorosa, mágica, para que nos não façam tanta diferença os séculos, e apenas remonte em bicos de pássaros, aromas argutos, beijos em que a saliva embrulhe com força de onda todo o idioma, um delírio de proporções exactas, medidas com inabalável precisão, nada de grandes mitos, mas alguns motes ferinos roubados aos provençais, aquele Arnaut justificando os nossos descaminhos, trovas, pragas, a oração que te sustém ao fazer um vinho de sugestões embriagando-se com goles de água, sofrer de tudo na acanalhada dose que serve ao charme, sem recuar um passo, nem esperar consolo, senhores de ninharias mas virando costas, partindo com um tremendo porte, penetrando enfim nesse misterioso território anárquico e feliz onde apenas pomos o pé quando saímos de cena, não importa de qual (Claudio Magris).


Enciclopédia de recortes abruptos, rasgos insanos, sanguíneos, luzes que viram tudo do avesso, confundem os papéis, leem-nos ardendo, compêndio de uma fauna caduca, e os últimos exemplos, aves dessas canoras habituadas a fingir a morte por comoção, uma existência de pequenos vícios, derrotas saborosas, restos de comida presos nos dentes de uma boca imensa, e os pormenores vagabundos, a dança de factos que não acrescentam grande coisa senão ao ritmo, à vigorosa melodia, estamos consumidos de uma diletância amorosa, à vez, eu ladro, tu uivas, somos a matilha das altas horas, e enquanto gritamos uns para os outros, trocamos insolências desde os nossos quartos feridos pela ondulação, dos enjoos ao fascínio, respiramos uma atmosfera que faz coisas estranhas com a imaginação, ventos imprevistos seguem-se, enchem-nos de temores e comichões, o estalar das premonições, sons nas margens deste rio, por isso não nos interessa compor ou registar o saldo de tantos assaltos, as lendas e terrores para fazer passar o tempo, fazer disso um livro seria um fim muito mau, se pudermos lançar uma frota com as suas folhas, ideias mas só tomadas na sua vitalidade em pânico, como caça encurralada, oferecendo alguma resistência antes de se abandonarem entre soluços, e serem apenas o corpo sobre o qual avança esse que não deseja ser correspondido, antes prefere impor-se e maltratar toda a história da paixão, reduzi-la a uma mancha tenebrosa num cesto de roupa interior suja, esse perfume bárbaro nos lençóis queima de súbito todas as cartas onde se tecia a intriga ociosa de amores improváveis, uma a uma raptadas as cento e cinquenta raparigas suabas e bávaras da sua barca alegre para a satisfação indescritível, não de fantasias ou inconfessáveis proclividades, mas do estupor acumulado de luz apagada, de uma aflição de se diluir num mal puro, sem necessidade de se explicar, abandonando toda a crença, degolando o pudor, os rituais desejantes, para apertar numa mão uma boa mecha de cabelos, afundar-lhe o rosto nessa última vontade de cair em ruínas, quebrando-se de súbito todo o encanto para dar lugar a algo mais natural e perverso, para que dessas cento e cinquenta descendo o rio possa originar-se uma linhagem lavada dos tantos pruridos, uma outra intensidade, virtudes desembaraçadas, escândalo, a noite levada a extremos, arfando, anotada com o maior detalhe, transmitida entre mulheres, sem margem para ingenuidades ou falsas esperanças, e se um livro pudesse levar-nos a isto, uma cultura que nos salvasse dessa monstruosidade puritana que faz de cada leito um esquife sacrificial, um culto em que na carne o gosto do mundo nos antecipa a imagem dele reduzido a cinzas, esse livro, sim, seria uma obra intrépida e tão ansiada, escrita por um génio maldito, o do tesão sufocado de toda uma geração.


O bom gosto ainda vai acabar por vingar-se num efeito de bomba atómica, de fruto que cai de muito alto, amadurecendo, arrepiando a sequência genética de tudo, com todo o vagar, vindo lá de um passado gemendo de velho, só por graça, tocando na pele as cordas dos antigos ferimentos de guerras que nos esqueceram já, mas afinal sabendo tudo o que é preciso, como Rilke, que não se trata de pensarmos em vitória, mas que sobreviver é tudo, e, afinal, vai-se ver e a queixa era o seu registo, um fluir de melodia ganhando forças quando tudo em volta parece perdê-las, retido, recusando-se a ser arrastado, a deixar que o comovam essas frivolidades que dão cabo do espaço que há na boca para rasgar, soltar e desfazer saboreando, numa bulha entre língua e os dentes, o que abre e corta e o que estuda infimamente, num instante, enchê-la de abcessos, como outras vias reduzidas ao comboio de carga que vem e volta num silvo, aflito, e, é provável que o passado seja a única saída, com o seu gosto barroco por gracejos e extravagâncias, artes menos imediatas, custosas, "sinos enterrados", sombras descosidas puxando pela imaginação, uma literatura de toca e foge, numa ironia evasiva, fragmentos furtando-se a uma narrativa directa, clínica, segura, arrancando peças da cronologia, como de um relógio para que o tempo fique sem reflexo, sem regime cardíaco, embebedando-se com as passagens mais frescas de outras ficções, numa gritaria de viciosa vida de estrada, o sentido todo da coisa enxovalhado, episódios mas sem desenvolvimento nenhum senão as voltas de uma neurose, narrar o cu, antes ir ao cu à literatura, como dizia o Fallorca, num desgosto ritual, relembrar o que era a festa, o vigor pagão de últimas noites na terra, devorar e dar-se sobre o prato negro, o árduo sentido de si, o sinal ou senha transferido num murmúrio ininterrupto e que eclodiu e segue desde os primeiros instantes de volúpia consciente da criação, isso que se abate e cede diante de tantos caminhos cortados, que se escapa entre os homens, entre a triunfante vulgaridade, o desuso e o desacerto, as convicções imundas que estrangulam essa raça de últimos, com a sua solidão sagrada, os seus desejos capazes de esperar, o ensejo simples de sobreviver, passar adiante esse dom feito segredo pelo desprezo que lhe dedicam os tantos, e é por isto que o bom gosto se tornou blasfemo e, ao mesmo tempo, o único milagre que nos resta, e por isto é que faz toda a diferença gostar deste mas não daquele, como a diferença entre ter a chave certa e rodá-la na fechadura abrindo um mundo seduzido e que se entrega nas suas condições, ou experimentar o molho de chaves todo, até quebrar alguma lá dentro, perder a cabeça, arrombar a porta e espantar-se que não esteja nada do outro lado.

domingo, abril 19, 2020


Nativo de uma morte sem gume, ouço-me tropeçar nalgum canavial, de rosto mergulhado em águas rasas, perdendo nelas os traços, como uma fotografia no escuro onde não se revela mais que os dedos arrumando a expressão, perdida nos vidros, nas noites que se quebrou, só e louco, morte de infecção azarada, coisa de nada, sem o que agradecer, gasta, comprada num alfarrábio em segunda ou outra mão, a que fica por trás das costas, com linhas meio esborratadas, com dedicatória para outro, uma data ilegível no frontispício, "eu sigo uma serpente que vem de me morder", num embalo estranho, sigo-a e sou feito de uma lenta despedida de nau, da súbita noite que um veneno cospe cá dentro, a vista turvando-se-me, "no mais judas do ser", um querer alguém para logo me ser lembrado o mal-entendido de tudo, a dor em que me afino, e abro ao calhas, abre o acaso, vê lá o que diz o índice, que diz de um destino despedaçado, do sol que desta página faz a sua pira, a nudez espalhou-se, essa gestação de tudo o que se fixou na tua trança, “pós apaixonados brilhando de aridez”, a roupa como se estivesse mais viva que o corpo, onde quer que esteja, cheirada tão perto tão fundo que ambiciono desolar-te, na doçura entre mortais que se amaldiçoam, o extenso encanto que torna a espera tão paciente, tão "firme em silêncios seguidos", pudesse ao menos romper-te o lábio de tempos a tempos, "antes que esta língua me faça mudar", cheio de raiva, mas frio, quis dar-te o último fruto, insustentável a esta altitude, para rolar ficando de fora só o texto, e bebê-lo à pressa, o veneno que de mim toma alguma noção, o meu amargo sabor que não vinha mas chega enfim todo num trago, interrompendo a aurora, na ânsia de acabá-lo, de to ler alto até só ser capaz de mexer a boca e no mundo mais nada, já de cara deitada a ouvir o pulso como um rumor que se aligeira, distancia, até de ti não saber o nome, o olhar ou a luz.

quarta-feira, abril 15, 2020


Vem aí onde o fim faz as últimas actuações da sua carreira, no início da noite experimentando este ou aquele sexo no camarim, fazendo beicinho, deitando cartas, uma poeira curta sobre as nossas vidas, vagas de marés mortas, perfumes para exibições sem vontade, o fim é uma drag num clube que atrai a mais fiel escumalha sentimental, onde a última moeda de um talento ou de uma fabulosa traição é gasta, e tudo parece espalhado até um sopro firme fazer a chamada, e então começa, alguns sentados nos ombros, outros suspensos na impressão desses passos de gigante, atrapalhado, rindo, que riso nas coisas, com modos bruscos, sonoros, uma primavera incomparável à solta, no ar apanham-se largas composições, deitamos tudo isso cá em baixo, no chão, notas pequenas, trocos, por dentro uns dos outros, o ouvido com o chão, janela aberta, medindo o tempo pelas garrafas e o que quer que faça História numa peculiar acumulação, sombras e pratos no lavatório, migalhas e flâmulas, roupas suadas, põe isso na música, anota, se dói serve, mas não nos contes, dela e do que foram os últimos meses, como to fez, te desfez, e quem mais, os miúdos que te rouba, sim, isso tudo, toca para eles, vira-te para lá, dá-nos as costas se te ajuda, sopra o mais que possas que nós seguimos, põe as coisas nessa fundamental desordem, um tico de jazz e logo verás como tens cúmplices onde menos esperas, como voltam a actuar nalgum fundo nocturno, que assalto, como cada ressalto floresce, bate, revira-se à superfície de um respiro, vamos pelo caminho onde nenhum vivo te alcança, deixa no retrovisor a rua até que se torne sobrenatural, a mesma rua sexual, a franqueza daquelas mulheres desfazendo o desejo em tabaco, no griso que rapam ali, passas de noite a contar as luzes, a fingir que se te abate a vida interior, ainda me lembro da última vez que entraste aqui desesperado, e era uma coisa inteiramente diferente, já então gesticulavas tanto, davas a altura do Adamastor a fazeres-te baixo para o impossível, mas vê-se que nunca tiveste o corpo feito tábua só para aguentar mais umas horas à tona, nem te ataram às velas o cadáver para que assobiasses depois de cada soco, quantas goelas em comum com o vento, a sentires as cordas fundirem-se na carne, volta cá, começa por esses nadas, esses triunfos miudinhos, depõe no temporal a tua podridão, sopra-o todo, e depois baixa as coordenadas, nisso as palavras importam, deixa algumas para mais tarde, vais precisar, uma corda dando voltas acabará agarrando o vazio pelo pescoço, vê só as coisas que se tornam possíveis sete corações abaixo, onde tudo realmente se complica, onde a noite poderá ser só abutres, mas terá o teu gosto pelo menos, e não desaparecerá tão cedo.

sexta-feira, abril 10, 2020


Com Heiner Müller

Corda. Passa-me um pouco, chega-me da vida
o que puderes, que estarei fundo, de boca aberta
atento como um cadáver que se alimenta
do seu túmulo, escrevendo com os ossos de quantos
E os passos que em cima me florescem nas ideias
O elmo amolgado p'la rotação dos astros
Oiço os vivos nos movimentos que à terra entregam
outras medidas, como a tempestade pergunta
pela raiz à árvore, essas florinhas e sombras que te vestem
e que pressa posta no mínimo detalhe prendendo o vento
Cospe no mar a língua, no meio de quantas correntes
enche de sangue um eco, coágulo erguido a grande altura
até se entornar na boca de quem o leia
As intrigas desamarrando-se,
a mortalidade resfolgando por todos os poros
Que a tua vida dure três palavras
entre os nomes mais infestados pelo desejo
E os nossos dois ditos alto num só fôlego,
trapos pendurados a secarem ao vento
com sangue negro, a ferida vive melhor no escuro
cada corpo leva alguns acordes talhados no osso
descrições esfolando de um a outro sentido
Enterrada em quanta roupa toco-te a pele
num frágil ponto exposto aonde venho chamar-te
Da harpa deitada, esse som que me foi tão caro
a posse violenta com que te arranco à nudez
a essa postura calma do que me faz luz
O tempo é p'ra mim já a única arma
Por isso, não te amaldiçoou-o
Basta um ritmo para fazer crescer esse receio
de me ouvires rodear-te transformar-te assobiando
recitando clássicos adivinhando quebras
como se te passasse por água, te refizesse
em verso dando-te de comer o ar à boca
e um dia logo o lerás só febril levantando que temporal
Por agora aguarda que to deixe numa bandeja
tangerinas flores dedos arrancados à cova
como raízes vivas soprando na mesa
o pó sobre a fruteira em alta constelação.

sábado, abril 04, 2020


Odeio as viagens e os exploradores
mas coço e remordo-me, esmago na pele parasitas
coleccionados sem querer
em tão remotas ou exóticas paragens,
sítios onde nunca pus os pés,
sinto que deixei lá noites mal dormidas
perseguido entre escritos esparsos e fragmentários
tanto cuspo, cordel, o colibri necessário ao quinto acto
candeeiros que persistem num subtil tremular
a rosa que devora tudo antes de se deixar
desfazer num suspiro quente,
a rosa ávida que se serviu do pior de mim,
dos sonhos de que saí aos gritos
e em troca expira esplendor e eclipse
Hoje, que gestos te servem de remendo?
Deixa a água correr, faz a barba
a todos esses tipos que fazem fila
quando te olhas no espelho
Juntos, afastam-se de um mundo envelhecido
das mulheres que de dia nos mordem
nos perturbam o sangue como de noite
o fazem os percevejos. Ilhado,
sou um estudo frio de tantos outros
educando ciúmes, a balouçar-me num breve olhar,
regressando de uma ira imensa com que colhi
do jardim perdido entre as antigas pragas
esta flor que do teu cheiro tirou a receita
para um final tão inclemente que se ri


sábado, março 28, 2020


Fiz um órgão vital de um mosquito que selei
numa gota de mel, enviei-to como carta,
O poema tresandava do cheiro de ter estado preso
tê-lo lido aos ratos e às estações, ter escondido riquezas
nele, quadros, retratos, lenços
de bolso, bandolins e metáforas,
Sabes o que é, caprichos de ladrão,
de um bom gosto sagrado
Que árdua é a ingenuidade, ter-se um talento
que te perdoe quantos crimes sejam necessários
A noite movendo-se aflita em torno:
O que foste fazer?
Estórias, senhas, segredos, leituras da posição
dos astros, espreitando no buraco
entre quartos, camas desfraldadas, jardins abertos
depois do sexo,
O pincel pousado, o fauno vendo morrer o seu
labirinto, a beleza que alguma vez posou
para mim, dói-me de todas, cresce, volta-se
Deixou que perdesse família, posição,
bom nome; e o que lhe fiz
É um monstro, a musa,
mas que coisas sabe, e me diz,
O chamar-me tão tarde
quando ninguém no mundo tem nada,
Como te levanta te põe um dedo nos lábios,
E te diz aqui, ali, não, frio, morno, sim
Desce, esquivo, faz-te intruso, adoece e muda
Tem-me vivo, atento, pronto
Atreito à errância, bom para recados
A seguir a lua, bebê-la, levar a cara às fossas,
lavar-me como faziam os santos,
ver-me nu, passando fome, de uma brancura
que cintile, cabra, tudo o que queiras, onde
e como queiras.


quarta-feira, março 04, 2020


Há-de ser madrugada por aí. Com que diferentes idades te vejo acordando aos tombos entre os degraus que se aclaram entre nós... Tomei boleia de um bote fantasma, um tipo alto seco que oiço cantarolar no seu zelo ébrio e que me levou aonde são deixados em branco os mapas, não levei uma só muda de roupa, só versos incompletos à espera de um rasgo, um volte-face, um gole de mar gemendo de tudo, num assalto ao eterno tom, esse que viu o azul tornar-se um clássico, e disse porra, isso não, tapou-se, fugiu daqui, isso e impensáveis tesouros, a herança de corsários nascidos em berço de ouro, náufragos como pérolas em galeões afundados, as obras completas desses que haveriam de ter escrito passagens para outro mundo mas acabaram incompreensíveis na memória frágil dos peixes, e chego aqui deslumbrado com todo o esquecimento, redigindo à pressa estas crónicas, como um naturalista lançado no Além, por vezes sinto que nem escrevo, que descrevo os esforços para escrever, os esforços para nascer, passar a limpo a peste, os nomes como são ouvidos cuspindo, manchados, urrando, a série completa das doenças, a epidemia dançando no meio das cidades, a canção das mil moscas em torno do dedo que apontou a única direcção, escrever com os olhos comidos, com a morte com receio de se chegar, piscar o olho à bibliotecária, contar-lhe as lendas de embalar com que se entretêm os mortos na sua noite sem fundo, recitar-lhe o poema copiado à mão, escrito nas bainhas de uma flor, para que a belisque o cheiro, a siga, com a calma compenetração de um sedutor, e mesmo que lhe rechace os avanços, acabe traindo-se, decorando-o, e cada verso lhe vibre atrás das têmporas, nos jardins que traz suspensos, e enfim regresse um dia mesmo que desfeita em pó, grãos ou pedrinhas, trazida por caminhos de formigas, e ali passe, se desnude, viva, costurada na intimidade deles.


segunda-feira, janeiro 20, 2020


Vá, conta-me a história, não toda, mas um pedaço, um reco de rolha cuspida, nem longe eu espero, mas põe corrente nessas águas, faz o que podes, de tímido a um desses crápulas cheios de si, passa-me o parágrafo mais longo, o mais cobra, acumulando peles, e os furos, o tintim por tintim, demora, tira o sangue, põe o coração o mais longe que dê, esvazia o bar, passa a limpo, de todos esses guardanapos, a ressaca, faz como se fosse uma viagem só, tira a limpo isso da noite, e do fundo, nós ouvimos daqui, por isso, fica com os músicos, arrumando as partes dessa canção que não termina, tu onde não te distingues, e essa história toda que não tem começo nem onde cair morta, felizmente parece que tem andado à nossa procura uma certa calma, um espaço que vagou, as cadeiras ali, sem nada, chegam bem, são audiência que baste, somos suficientes, revezando, o rapaz limpa os copos, parece um ensaio isto, também aqui, o ritmo a fazer mira a algo que se levanta não se sabe de que memórias, as flores que ficaram no lixo, o bilhete, posso ligar amanhã?, e não é que ligássemos, mas combina-se amanhãs sucessivos, para saltar de um remorso para o outro, fazer comboios, conforta a ideia de que alguém meio que espera, entretém alguma dúvida, e tu que até te perguntas, se ligo vou dizer o quê, posso ler o meu texto, fingir que é uma carta, virar o copo, desafiar-me a isso, inventar e dar cabo da minha própria Felice, até me aborrecer, pôr um fim agonizante, desesperá-la, com a impressão do romantismo ganhando ímpeto para se esvair com uma mão dentro das calças, e volto à cadeira, balouço-me, que belo sacripanta, admiras-te?, pode ser que a frase seguinte te salve de ser isso sem nada, desculpa nenhuma, daí a esperança no ritmo, a inveja dos músicos, daquela intimidade do muito coçar, mas alto, desafiando comichões que nem se imagina, suponho que uma perseguição dessas os livre de coisas piores, esses actos escrupulosos que envolvem sangue e geram um pavor do caraças, mas outros já antes, e melhor do que eu faria, defenderam esse rumo como uma das belas artes, e então, vejamos, o que nos resta?, ou melhor, que acontece a seguir? O que eu detestava que mo perguntasses, que a própria interrupção não fosse o bastante – até aqui, o dia, estava a ir bem? –, um bom leitor, se o Estado tiver paciência de nomear um, pode funcionar como um agente da liberdade condicional, alguém que vela, nos pede para encher copitos de urina, quer-nos ver reintegrados, o cabrão, e já ouviu todas as desculpas, por esta altura está a ficar maçado com a ladainha, tento entesoá-lo com o livro sobre nada, declinações, que lhe interessa o que levo no sangue, não há leituras que batem muito mais, têm tantos mais cascos que o cavalo? Mas que lhe interessa, calado, com o modo como os olhos revistam a frase, cai para este lado o sermão, como me vens repetindo essas tretas sobre disciplina, um plano, e me mostras gráficos, o descaramento de me vir falar em vendas, porra, que padrão para quem saiu para os descobrimentos, terá o gosto ficado para rato de porão, talvez nem tenhas considerado bem, mas agora é isto, toda a gente dá conselhos, e eu, pesado como me ponho, bato cada palavra, que hastes altas estas putas têm, ando por ali, entre pernas e saias, debaixo das mesas, que outra perspectiva, e custa-me ao dizeres que há sangue no modo como as conto, eu que nunca quis cair no regaço da história, antes ser um criadito com um parafuso a menos e a quem fossem toleradas certas tontices e patifarias, por respeito à mãe (coitada da senhora), mas confesso-te que, vens-me com isso, e sinto-me a escorregar. O que querias agora? Que estivéssemos a saltar da caraterização do nosso protagonista, e da família, um outro amigo, para o entorno social, a ampla gestão de um complexo epocal, foda-se, não me faças uma coisa dessas. Não é descortesia, até porque a incapacidade para a delicadeza, o apuro de um detalhe que fique deste lado, puxando-te a toalha da mesa, atirando pratos, copos, talheres e tudo no chão, é minha, é, e não estou a ver grande compensação, mas cá me tens, incapaz de uma cena escorreita entre a sombra que faço no papel, o gelo no copo, a janela, o tempo sem costura da lua e do sol, não posso fazer melhor, não consigo tirar as distracções do caminho, sigo-as, ah que coelho, todas, mas e eu quem sou enquanto as persigo, e se tu vens, o cajado está na minha ou na tua mão? Antes fôssemos rapazes, mas dos outros, sem especial respeito por si mesmos, atrás dessas mulheres baixas, magras, indesejadas, mas que depois, ao seu jeito, com um certo encanto imprevisto, se revelam capazes de dar cabo de nós. Há uma que me aparece nestas alturas, esfregou comigo o inferno, deixou-me doenças inventadas, dessas de fugir de toda a atenção médica, suores frios de escavar na cama com uma colher de chá, mas se quiseres eu digo-te o que foi, como se a visse numa linha entre outras talvez fosse a última, como a princípio não trocaria pelo dinheiro para o lanche, mas que espécie de fungos se nos dão nessas partes de nós alheadas, como as feições pareciam mais delicadas de cada vez que mudava de opinião sobre qualquer coisa, como tudo a encanta num segundo e logo se desinteressa, como quer que a fodas como faziam outros, como ter ao lado das tuas as linhas que outro escreveu e que, tendo vivido o mesmo, tirando mais, te humilha. Não é bom se nos mantivermos à margem das antigas ambições, até para que nada de respeitoso ou elevado nos interrompa e possamos ser cruéis como há muito não se via nestas lides, sem pestanejar, sem nos justificarmos? Era uma pergunta. Já vamos em quantas? Se não for assim, façamos então ao teu jeito, até podemos mudar-nos, ir viver do outro lado, onde nos olham sem a menor ideia, não se pensa mais nestas coisas, não deixamos nem uma morada ou contacto, vamos ver quem aguenta sem se desmanchar, espiando-nos mutuamente atrás de impecáveis bons modos, a acenar uma vez por outra por detrás da nossa espectacular falha de carácter. Essa merda aí fora está cheia de heroísmos desesperados. Abençoados calhamaços provando a tenacidade e virtude desses tipos erguendo as suas catedrais aos mais improváveis dos deuses. Se eu fosse mais nobre, invejava-os. Mas preferia anotar no canto de uma folha a sórdida combinação de palavras que fizesse jus ao que eu gostei do vestido dela... Se por ti íamos mais longe, se tens fôlego para muito mais, é porque não estamos a falar da mesma coisa. O que te posso dizer de mais seguro é que as leituras a que sinto os ossos são essas que sabem como retiradas, recuos já sem estratégia, sem hipótese de reagrupar, de impingir alguma coisa aos homens, fingir que ainda lhes resta alguma moral. Contam-se as armas apenas para que cada um se garanta uma saída misericordiosa se as noites não o largarem. Tive períodos em que não saltava uma. Quando já não podia mais, ao fechar os olhos, sentia os cães dela a buscar-me pelo cheiro. Não demorariam muito. A saída é voltar-se contra si mesmo. Incapazes de perdoar, entre as memórias não há grande revolta, apenas desdém por quem fomos, e mesmo por quem se cruzou connosco e se lembra, nessas alturas até nos teve afecto. As histórias levam-nos um pouco mais longe cada uma, até não podermos mais fazer sentido, tomando-o como uma traição. Nas melhores alturas, calaste-te bem calado. Lias à distância toda de quem já conhece todos os finais. Não sabes o quanto me arrependo das outras. Era isto. Aproveito, e dito-te o que lhe disse: “Se não nos virmos por aí, imagina o melhor. Estarás errada, mas ao menos fazes-me esse grande favor.”

sexta-feira, janeiro 17, 2020


Há uma porta que fechei até ao fim do mundo
Borges

A linha treme-me sem se perceber de cada lado vêm ou para onde se dirigem essas notas sem um texto, traduções, soluços, o pegar em mãos só para sentir o pulso e largar logo, não é este, não exactamente, mas o ritmo lembra, estamos próximos, que jogo se faz consigo mesmo para que mais ninguém entre, ninguém se sente, mas se tem de ficar aí, de pé, ao menos ajude-me a acabar a cerveja, e não se preocupe, isto, estas linhas, nem para mim significam muito, um balbuciar idiota, o meu espectáculo de derrota, estou com aqueles para quem a guerra ou a paz não faz a menor diferença, o inferno certamente não aguarda instruções nossas, talvez nos deixe um canto, uma sala de leitura, para continuarmos, como vê, temos lido de tudo, sem querer, como quem perde o juízo, quanto ao resto, chega de tumultos cá dentro, que tudo se indisponha aí fora, tanto se nos dá, "gemer, rezar, chorar é igualmente cobarde", anotei isto aqui, já não sei com que propósito, em tempos tive para mim o encanto de buscar a alguém, a ilusão, isso de andar por aí inquirindo as pessoas, levando um nome como se fosse um caso de vida ou de morte, juntando parcas informações, pistas, memórias, e com que firmeza nos aplicamos nessas demandas, e se nos desse alguma coisa, um baque a meio, morreríamos bem mais realizados, pulsando de curiosidade, bem mais do que levando a coisa até ao fim, as boas mortes foram tão perseguidas que hoje mesmo as mais banais são já como artigos de luxo, é preciso recorrer ao contrabando para se ter uma onde se caiba inteiro, de uma só vez e sem ir alguém de pendura, ou inventa-se a própria, correndo o risco que há em tudo o que procura ser original, essas tristes figuras, por mim gostaria de roubar hoje a bicicleta que por um triz não me entregou a uma sem dar sinal de entrada, tudo depois tem sucedido como se os preparativos houvessem sido feitos, e para quê estragar o luto de que já se haviam vestido, até morria para lhes fazer a vontade, mas depois há este detalhe: não me apetece, ir só por delicadeza?, não vou insistir que é cedo, mas, como o Lao-Tse, a ir-me desta prefiro mesmo ir indo, andando, e depois também digo que, ficando, parece que alcancei a porta que Borges se lembra de ter fechado até ao fim do mundo, e cativa-me este cerimonial dos lojistas a encerrarem tudo, o modo quase litúrgico com que os rapazes despejam o lixo e viram as cadeiras, a filosofia chega a parecer indecorosa quando se pode estar assim, íntimo destas flexões da rotina, e um homem precisa de tão pouco, convém-lhe até entender o menos possível, deixar-se encadear, apreciar este compasso lento das danças desoladas, a destilação em coisas de nada, os actos e movimentos que se repetem no que há de mais escuro, essa morte que não maça, em que cada segundo luta pelo seu espaço antes que o seguinte se lhe imponha, e mesmo aí parece sair resmungando, dá um chuto no balde de tinta, e sei que havia mais alguma coisa a dizer, mais duas linhas ou três, mas agora não se consegue, a tinta consumiu-as.