domingo, abril 21, 2019


Se a terra me surgisse por partes
como sons na lista de um cego,
o íntimo tremor na superfície hoje seca
cantasse ao ouvido um naufrágio,
um tom erguendo no ar a mesma ordem
como flor antiga abrindo sem que tudo se desate
mas ate um pouco mais fundo
rompa uma veia e a vista se turve.
Tem uma hesitação mortífera a beleza,
um prenúncio, algum resto,
o modo que tinha de pôr-se à janela
e ameaçar-te como se o contemplasse
passando por trás dos espelhos
como quem veste, se despe e planta
sementes de um fruto com quantos séculos
Aquele nome que dela tão pouco tinha
murmuro-o devagar e lavo a boca mais tarde
no excessivo gosto da carne
Tomo o meu banho e observo
memorizo a sombra como se a pregasse
para estudar no caderno em alguns anos
ensaiando a receita de que se alimentou
com a pequena tijela entre as mãos
na água velha de que lume o aroma perseguido
como se a tinta mordesse de um eco os lábios,
como ter a insectos numa garrafa e agitá-la de noite
para que façam um pouco de luz,
bêbados depois de tudo ter-se acabado,
e talvez um soneto fosse a justa dose,
decantando uma melodia pela vida fora
que línguas haveria em sua volta de escutar,
portas abertas, aragens, mutilações suaves
como no mel em tempos podia ler-se
a ardorosa biografia das abelhas,
e com gestos simples, secos, pedir que chova
num mesmo ritmo sôfrego,
nos mesmos perdidos lugares
tão fresca proximidade do mundo

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