terça-feira, março 26, 2019


Trago o pássaro de fogo num cantil
balanço-o e vibro com cada volta, as asas
o muito que se bate,
como depois o esforço arrefecendo
da água
e a cada gole estremece-me a boca,
aclara-me os olhos numa hora,
escurece-me a pele noutra,
como quem lesse música oiço-a sem fôlego
nos caules quebrados, as flores deitadas
aumentam-me a cabeça os sentidos

que dizia a chuva numa panela velha
faz muito, o vento nas ervas?
afastando a mesa, um verso
de pontaria distendida
montava armadilhas para pintassilgos
Era isto: acabava ali a terra, em tons suaves:
amarelos, azuis, rosas de sorriso carnívoro
teria uns dezassete, só depois chegam as idades
diferentes, a noite inteira
o sol dando a volta no interior de frascos
e que lâmpadas, como se nasce
saboreando novas expressões
a desordem do mundo como um lanho na carne
ter um nome dos últimos
e olhar desde aí essas raras impressões
enquanto a vida não se acaba

como a visão dela em flor de som
os cabelos escorrendo água
como do próprio perfume se sacode
e nele se move brandamente o arvoredo
Mas a pressa ainda é pouco, sigo-a
caules, salpicos de sangue ou suor nas silvas
bebendo nas folhas a gota estreita que me escapou
e brusco descrevo-a, isto circula
a flecha zumbe e o fogo espalha-se
deito a colher nas fontes que fervem
e nem me faltam crenças selvagens
a parte quebrada que do grito se volta
e fere como lâmina
um desejo de silêncio devorando os grilos
o sabor das coisas, respirando, sublinhadas
uma espécie de arte que fosse simples
como ter fome


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