domingo, abril 29, 2018


Se acabei sendo falado, deixei a pele
entre espinhos, talvez fosse o certo
ter dado a vida de todas as vezes,
ao mesmo encanto e raiva,
e assim usei os ossos todos da fala,
ruídos que atravessam o mundo,
e fui nascendo de tudo, e fiz-me eco
antes de voltar à carne. E isto
à luz de que absurdos, quantas eram
as histórias que temiam este fim?
O que fiz só, com os passos curtos
que me exigia uma música cega,
sabendo como muitos aqui
ouviam do sangue últimos avisos,
tomando o gosto dos lugares
onde outros caíram. E o frio depois
por duas ou três gerações.

Viagens só até metade, pelo gosto mais
de desaparecer, águas
pouco profundas,
para me voltar nas impressões
de um estranho, vir deixando
esta roupa lenta entre os penhascos
um pó que se levante e conte à noite
sobre outras mil.
De longe o vento chama
as nuvens só começam além.
túmulos sem nome no meio das urtigas,
e sempre que voltamos
a vegetação já calou os sinos.
Espero da desordem um sinal.
Tanto trabalho
todo um país desfocado, tremem-nos as mãos
se escrevemos, as mesas fogem-nos
um prego certo, firmando
por um instante a paisagem
que acabará invariavelmente rasurada.
As coisas que ficam, mal se lembram
o sorvo da flor bebendo a sua gota
de tinta. Estou aí, no escritório dos fundos
dissolvido em febres
desci do quarto, um hotel miserável
ameaçando fechar entre duas épocas
tão triviais, desci
depois de esconder uma rosa num armário
a nota que case com um suicídio exemplar
cá fora ocupam lixam tudo
leio os cartazes, uma arte imbecil
que enxameia e apaga as ruas.
Nunca fizemos outra coisa
senão atirar a primeira pedra,
mas uma interior, e que nos fazia tanta falta.
Hoje, quem chamam os nossos nomes,
que rostos anteriores, a que quartos
quando dormimos tentamos voltar
repetindo esses gestos que despiram
uma só vez o corpo tão procurado?

A luz que me acaba, o veneno
que me tirou tantas vezes a medida,
e a flor que escondi por saber dos ciúmes
que um dia terás da minha morte.

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