quarta-feira, abril 04, 2018

Roberto Juarroz



Penso que neste momento
talvez ninguém no universo pense em mim,
que só eu me penso,
e se agora morresse,
ninguém, nem eu, me pensaria.

E aqui começa o abismo,
como quando adormeço.
Sou o meu próprio sustento e retiro-mo.
Contribuo para decorar tudo de ausência.

Talvez seja por isto
que pensar num homem
se parece com salvá-lo

...


Há que cair e não se pode escolher onde.
Mas uma certa forma que o vento toma nos cabelos,
certa pausa no golpe,
certa esquina no braço
que podemos dobrar quando caímos.

É tão-só o limite de um signo,
a ponta que não se pensa de um pensamento.
Mas basta para evitar o fundo avaro de umas mãos
e a miséria azul de um Deus deserto.

Trata-se de dobrar um pouco mais uma vírgula
num texto que não podemos corrigir.

...


Enquanto fazes qualquer coisa
alguém está a morrer.

Enquanto puxas lustro aos sapatos,
enquanto odeias,
enquanto lhe escreves uma longa carta
ao teu único amor ou não único.

E ainda que pudesses chegar ou não fazer nada,
alguém estaria a morrer,
tentando em vão juntar cada um dos cantos,
tentando em vão não olhar fixamente a parede.

E ainda que estivesses a morrer,
alguém mais estaria a morrer,
apesar do teu legítimo desejo
de morrer num minuto com exclusividade.

Por isso, se te perguntam pelo mundo,
responde simplesmente: alguém está a morrer.

...


O outro que tem o meu nome
começou a desconhecer-me.
Desperta onde eu não durmo,
duplica-me a persuasão de estar ausente,
ocupa o meu lugar como se o outro fora eu,
copia-me nas montras que não admiro,
agudiza-me nos reflexos de que desisti,
desloca os sinais que nos unem
e visita sem mim as outras versões da noite.

Imitando o seu exemplo,
agora começo a desconhecer-me.
Talvez não exista outra maneira
de começarmos a conhecer-nos.

...


Sobramos.
Aqui ou não importa onde:
nalguma parte sobramos.
Somos o excedente
de alguma pedra transversal do destino.

A música está feita
das pegadas de um astuto animal
que se aproxima e de imediato se esfuma.
As palavras são minúsculos espasmos
de uma erva diminuta
que se apressa demasiado a crescer
e não consegue assim o seu próprio sol, a sua própria chuva.
Os amores ou ninguém,
os amores com ninguém,
ou ninguém com amores,
são órfãos que mamam
de um seio há muito esgotado.

Os deuses que caíram,
os deuses que não caem
porque nunca estiveram lá em cima,
a selva invegetal dos deuses,
dialoga unicamente
com o filo-horizonte que nos cerca.

As mãos, que antes foram,
e as coisas que não foram nunca
atam-se a este nu
que não aprisiona nada.

Não, não somos só nós:
tudo é algo que sobra.
Aqui ou em outra parte.

...


Forçar o piscar de olhos do que se sabe
como o miúdo empurra o brinquedo para o canto da mesa
e o deixa cair sem motivo,
quem sabe para brincar com o seu lugar vazio.

Há um céu de coisas enterradas,
um céu brusco e duplo,
no qual o outro se abstém.

...


Às vezes damo-nos conta de algo
entre a noite e a noite.
Damos por nós de súbito parados debaixo de uma torre
tão fina como o sinal de adeus
e pesa-nos mais que tudo desconhecer se o que não sabemos
é onde ir ou aonde regressar.
Dói-nos a forma mais íntima do tempo:
o segredo de não amar o que amamos.

Uma obscura pressa,
um contágio de asa
ilumina uma ausência desmedidamente nossa.
Compreendemos então
que há sítios sem luz, nem escuridão, nem mediações,
espaços livres
onde podíamos não estar ausentes.

...

Uma mosca anda de cabeça para baixo no tecto,
um homem anda de cabeça para baixo na rua
e algum deus anda de cabeça para baixo pelo nada.

Apenas tu não andas esta tarde,
a menos que as ausências puras
inventem outra forma de andar que não conhecemos:
andar de cabeça para cima.

Exploraremos o encontro do amor com a pedra,
a viagem da mão ao seu duelo,
a praia de bandeiras com que sonha o sangue,
a festa de ser homem quando o homem desperta
e cai em ser homem,
a fábula que se converte numa criança,
a mulher necessária para amar o que amamos
e até o que não amamos.
E exploraremos também o espaço vazio que deixaste no teu poema,
o espaço vazio que deixaste em cada palavra
e até no teu próprio túmulo
para alcançar o futuro.

Ali te encontraremos
e juntos iremos pôr-nos a andar de cabeça para cima.

(a Paul Éluard)

...


Os músculos gastam-se como pedaços de giz que escreveram demasiado,
o coração caminha por sua conta sobre as cordas que ele mesmo estende,
a hera dos anos trepa como um organismo espontâneo
e até as linhas que não desenhámos 
se arrancam de nós como se quisessem completar o seu desenho.

O homem quase não existe,
mas pode colaborar no desgaste e nas contracções.
O homem quase não existe,
mas pode colaborar com a sua ausência.

Talvez a existência do homem consista simplesmente
em aperfeiçoar o não existir.

...


Chega um dia
em que a mão percebe os limites da página
e sente que as sombras das letras que escreve
saltam do papel.

Detrás dessas sombras,
passa então a escrever nos corpos espalhados pelo mundo,
num abraço alargado,
num copo vazio,
nos restos de algo.

Mas chega outro dia
em que a mão sente que todo o corpo devora
furtiva e precocemente
o obscuro alimento dos signos.

Chegou para ela o momento
de escrever no ar,
de conformar-se quase com o seu gesto.
Mas o ar também é insaciável
e os seus limites são obliquamente estreitos.

A mão empreende então a sua última mudança:
passa humildemente
a escrever sobre ela mesma.



Sem comentários: