sábado, abril 28, 2018

Roberto Juarroz VII


Não se trata de falar,
nem tampouco de calar:
trata-se de abrir algo
entre a palavra e o silêncio.

Talvez quando tudo tenha decorrido,
também a palavra e o silêncio,
fique essa zona aberta
como uma esperança andando para trás.

E talvez esse signo invertido
constitua um toque de atenção
para este mutismo ilimitado
onde palpavelmente nos escondemos.

...


Uma escrita que suporte a intempérie,
que se possa ler debaixo do sol ou da chuva,
debaixo do grito ou da noite,
debaixo de um tempo nu.

Uma escrita que suporte o infinito,
as gretas que alastram como o pólen,
a leitura sem piedade dos deuses,
a leitura iletrada do deserto.

Uma escrita que resista
à intempérie total.
Uma escrita que se possa ler até à morte.

...


Além de cultivar a terra e a memória,
é preciso cultivar o vazio:
a prometida inexpressão dos rostos,
a divisão das metáforas,
os patéticos apelos de deus,
todo o lugar onde cessou de haver algo,
todo o lugar onde deixará de haver algo,
os pensamentos que algumas vez se pensou,
os pensamentos que nunca se pensou.

E cultivar também preventivamente o vazio
ali onde se cultiva qualquer outra coisa,
como a só e taciturna garantia
de não se desviar da linha.

Cultivar o vazio com as mãos nuas,
como o agricultor mais primitivo,
mas além disso cultivar o vazio com o próprio vazio,
com a sua última inocência:
a sua ignorância do ser.

...


Batem à porta.
Mas as batidas soam ao contrário,
como se alguém batesse desde o interior.

Acaso serei eu quem bate?
Talvez as batidas desde o interior
queiram tapar as do exterior?
Ou talvez alguma porta tenha
ela mesma aprendido a bater
para abolir as diferenças?

O que importa é que já não se distingue
entre bater de um lado
e bater do outro.

...


Não temos uma língua para os finais,
para a perda do amor,
para os concentrados labirintos da agonia,
para o escândalo amordaçado
para os afogamentos irrevogáveis.

Como dizer a quem nos abandona
ou a quem abandonamos
que juntar outra substância à ausência
é afogar todos os nomes
e erguer um muro
em redor de cada imagem?

Como fazer sinais a quem morre,
quando todos os gestos já secaram,
as distâncias se confundem num caos imprevisto,
as proximidades se derrubam como pássaros enfermos
e o caule da dor
se quebra como o vaivém
de um tear que se decompôs?

Ou como falar cada um a si próprio
quando nada, quando ninguém já fala,
quando as estrelas e os rostos são secreções neutras
de um mundo que perdeu
a memória de ser mundo?

Talvez uma língua para os finais
exija a total abolição das outras línguas,
a imperturbável síntese
das terras devastadas.

Ou talvez criar uma fala de interstícios,
que reúna os mínimos espaços
intercalados entre o silêncio e a palavra
e as ignotas partículas sem ganância
que só ali promulgam
a equivalência última
do abandono e o encontro.

(para Jean Paul Neveu)

...


Deter-se ante o assombro
que se desprende no gesto de uma rosa
ou na maravilhada tertúlia
que entabulam as cores e os pássaros
sobre a franja insegura do entardecer,
equivale a assombrar-se do assombro.

Aparece então uma nova inocência,
mais essencial do que a primeira.
Só nela germina
o assombro definitivo:
o reconhecimento através das máscaras.

A salvação pelo assombro.

...


Tive pena de uma borboleta
durante um sonho.
E não sei agora como fazer
para não sonhar com ela de novo.

Outra borboleta
acercou-se de mim desperto:
era a mesma borboleta.

Talvez um pacto
entre o sonho e a vigília
me impeça de agora em diante
de reconhecer outra.

Ou mutilado por um sonho
já só possa ver
essa única borboleta.

...


Nem sequer temos um reino.
E o pouco que temos
não é deste mundo.
Mas nem tampouco é do outro.

Órfãos de ambos os mundos,
com o pouco que temos
resta-nos tão-só
fazer outro mundo.

...


Raramente volto a ler-me.
Se o faço,
parece-me que quem escreveu aquilo
foi alguém que ficou pelo caminho,
talvez para esperar o meu retorno
ou para poder observar-nos à distância
ou levar o depois por caminhos secundários
patra encontrar-nos outra vez mais à frente.

Reler-se é suspeitar de algum modo
que a vida que passou
nos aguarda noutra parte,
como se um filho pródigo desta vez
esperasse à sua porta
o improvável regresso do seu pai.

Atrás de cada palavra escrita antes
assomam como um povo furtivo
todas as palavras que não soubemos escrever.
Por isso reler-se é encontrar,
mais que as visões que fomos,
as visões que nos reclamaram em vão,
mas ficaram como algas curiosamente insistentes
aderindo àquilo
que sem compreendermos de todo recolhemos.

Se o tempo não estivesse esgotado,
talvez valesse a pena reler-se
por nenhuma outra razão que essas adesões.

...


Palavras que me nomeiam.
Mas todas as palavras me nomeiam
quando eu sei escutá-las.

Agora devo aprender a dizê-las
para que outros se sintam nomeados
se acaso as escutarem.

Para nomear um homem
são necessárias todas as palavras.

Agora é só a minha vez
de prosseguir a cerimónia.

...


Calado entre palavras,
quase cego entre olhos,
mais além do cotovelo da vida
e prendado de um deus que é pura ausência,
retiro o erro de ser um homem
e corrijo com paciência esse erro.

Assim deixo uma nesga às janelas do dia,
abro as portas da noite,
risco os rostos até ao osso,
puxo o silêncio da sua cova,
dou a volta a cada coisa
e sento-me de costas para tudo.

Já não busco nem encontro,
não estou nem noutra parte,
desando e vou mais além do desvelo,
consagro-me às margens do homem
e cultivo num fundo que não existe
a mínima ternura de não ser.

...


Uma folha que cai
pára num ramo intermédio
e adquire ali a forma
de um pequeno ninho.

Só uma queda interrompida
pode curvar-se como morada ou refúgio
par demorar outra caída.

Se os deuses existissem,
só um deus que tivesse caído
podia ser sustento do homem.

Como só um homem que cai
poderia ser sustento de um deus.

...


Retroceder de todas as línguas.
Reencontrar as palavras
no seu estado de pássaros em voo,
beijos que escapam de uns lábios
e se vão por sua conta
em busca de outros lábios.

E já que não é possível
encontrar a nudez das origens,
recuperar nas palavras
algo tão solto e livre
como a nudez dos cabelos.

E quando todas as palavras
voltem outra vez a ser um começo,
também o homem começará de novo.

E talvez tudo comece de novo.

...


O amor sai truncado às vezes
como um metro amputado,
mas o vazio continua a fazer os seus gestos,
que talvez alguém receba.

Ainda que o amor se vá,
o hábito de amar alarga-se sempre.
Por isso não é estranho
que se o amor retorna
os seus gestos se entreteçam
com os gestos anteriores.
E apareçam amores
que vão pelo mundo
com gestos duplicados,
amores que parecem dois amores.

Não é raro, portanto,
que confundamos um amor com outro
e até amemos aquele que já não está
no lugar daquele que está.

...


Há coisas que ocupam tanto o seu lugar
que chegam a expulsar-se a si mesmas
e empurram tudo ao seu redor,
como inverosímeis criaturas que extravasam a sua pele
e não podem reabsorver-se.

Assim às vezes a poesia não me deixa escrever.
A escrita fica então esmagada
como o pasto debaixo de um grande animal.
E só é possível recolher umas poucas palavras
espezinhadas na erva.

Mas todo o poema não é mais que um balbuceio
debaixo do balbuceio sem fim das estrelas.


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