sábado, abril 28, 2018

Roberto Juarroz VI


Vomitar o mundo,
expelir a sua substância irreal e viscosa
como o enfermo que se alivia numa arcada.
E ficar sem mundo,
sustendo o nada na mão
ou talvez uma flor,
que também já não é deste mundo
mas do cerco à cautelosa realidade que o rodeia.

E não buscar então outro mundo.
Renunciar ao infiel conglomerado
sob qualquer das suas formas
e passar o fio solto e invisível
com que se cose o revés dos mundos
pela anti-forma de uma agulha.

E disso retirar sustento,
dessa exemplar frugalidade,
como o canto se sustém do voo
ou o amor de uma ausência.

E dar início à buliçosa anti-história
de criar anti-mundos.

...


Não prestar atenção às palavras
salvo àquelas que transportam
a sua própria carga de silêncio.
O discurso do homem é estranhamente opressivo,
mas algumas palavras ficam soltas
como pássaros que se afastam do bando
e que uma zona especialmente susceptível do ar
retém e congrega.

Não prestar atenção tampouco à escrita,
salvo a certas páginas desprendidas ou rasgadas
que conservam fragmentos
de algumas histórias que não parecem história
ou de um balbucio com uma estranha ilação,
papéis que o vento junta pelos cantos.

E nem sequer prestar atenção ao que se cala,
porque o silêncio do homem é quase sempre
nada mais que um terreno baldio,
cercado por umas sebes lastimáveis
que impedem as formigas de o arrastar.

Mais além da palavra e do silêncio,
a verdadeira linguagem articula outras coisas,
por exemplo,
o lâmina sem sossego que o fere.

(a Carlos Lohlé)

...


Todo o poema é uma hesitação da história.
Cobrir a história com poemas
equivale a que as suas camadas se estendam
mais longe que as acções dos homens.

O poema também é uma acção,
um movimento da terra que pisamos,
mas em sentido inverso,
até onde quase tudo se abstém.

Ali onde no final quase tudo vai,
mas num triste e forçado cortejo,
invocando os ossos da história,
as suas quaresmais zonas sobrepostas.

O poema salta fora da história
como animal de caça
que transtornando a ordem dessas camadas
põe uma outra por cima: o infinito.

E então o animal de caça
descarta a presa sempre fóssil da história
e redobra também a sua própria garra
para correr por fim pelo ar livre.

(para Fernand Verhesen)

...


A barbárie da morte,
a rústica pantomima da morte
e a sua cruel e vulgar desumanidade,
no jogam bem com o pensamento.

Talvez o amor ou a dor
possam pactuar com ela
e quem sabe também a música ou o sonho,
mas o pensamento é uma bandeira
planta noutra parte,
como o é de resto a poesia.

Ambos enlaçam na sua índole aberta
as antinomias da morte.
Seja como for,
uma coisa é desenhar rostos no vazio
e outra apagá-los.
E isto com ou sem testemunhos.

Precisamente,
a poesia e o acto de pensar
são o que há de mais oposto à morte
porque são as suas testemunhas mais fiéis.

...


Uma solidão cá dentro
e outra solidão lá fora.

Há momentos
em que ambas as solidões
não podem tocar-se.
Resta então o homem no meio
como uma porta
inesperadamente fechada.

Uma solidão interior.
Outra solidão exterior.
E na porta ecoa o bater das duas.

A maior solidão
está na porta.

...


Marcou certas palavras para sempre,
como espigas de osso desperto
no trigo do sangue e revérbero da linguagem,
mas não as marcou com lápis nem com giz
antes com esse til do silêncio
que sobe do interior da terra
e se mistura com o sal da música
nos corpos ardentes e queimados.

Marcou certas palavras para sempre
e elas marcaram-no para sempre,
porque era preciso levar outra vez ao poema
as penas e os cravos que enlaçam os caminhos
e também os mais teimosos gestos
do amor e do ódio,
da coragem e da dor,
esses focos de ressurreição sem morte.

Marcou certas palavras.
Cantou-as para todos.
Carregou-as às costas
da cor e da música.
Aliviou com elas
a mão no arado
que cada qual opera.
Desenhou de novo para nós
este mundo e os outros.
Mostrou-nos que é possível
ser homem e ser destino.

Marcou certas palavras para sempre.
Que mais pedir a um homem
que ainda por cima é um duende?
Que mais pedir a um homem
que caminha para a morte?
Que mais pedir a um homem
que abriu o sol e a luz
como um limão maduro?

Marcou certas palavras.
Acreditou em certas palavras.
Criou certas palavras.
Não as esqueceremos.
Não esquecer é a forma
de prosseguir marcando para sempre
as palavras e o mundo.

(a Federico García Lorca)

...


Recuperar figuras do sonho
como quem ganha terreno ao mar
e fundar nessa mínima praia
o tremor de um pequeno poema.

Devolver logo o sonho ao sonho
e fechar o circuito,
porque o sonho não pode ficar muito tempo
fora do sonho.

Assim, quase sem o ter buscado,
ficará entre as palavras do poema
um pouco do perfume do fundo.

...


Os nomes não designam as coisas:
envolvem-nas, sufocam-nas.

Mas as coisas rompem
as ligaduras das palavras
e voltam a estar aí, nuas,
esperando algo mais que os nomes.

Só pode dizê-las
a sua própria voz de coisa,
a voz que nem elas nem nós sabemos,
nessa neutralidade que simplesmente fala,
esse mutismo enorme em que as ondas rebentam.

...


A fractura de deus
ou do sonho de deus
que levamos em andas
como um rio sonâmbulo,
requer também o tratamento
de tudo aquilo que não é deus,
a ortopedia massiva de todas as coisas.

Há que engessar ou entaipar então
a pequena mata de erva
e o olhar perdido das pessoas,
o balbucio ou a afasia
de tudo quanto existe.
Há que curar o vento quebrado
como se fora um osso,
o amor que se vem abaixo,
a ruptura inexplicável da paisagem,
o traumatismo crónico
das ausências e a morte.

Mas a traumatologia não conhece
nem cura nem cirurgia
nem sequer alguma prótese sagrada
para a grande fractura da origem,
não só a de deus
ou do sonho de deus
mas a que vem já de trás,
a irreversível fractura do ser.

Se esta fosse curável,
deus também seria.

...


Uma árvore é o bosque.
Estender-se debaixo da sua folhagem
é escutar todo o som,
conhecer todos os ventos
do inverno e do verão,
receber toda a sombra do mundo.

Deter-se debaixo dos seus ramos sem folhas
é rezar todas as orações possíveis,
calar todos os silêncios,
ter piedade por todos os pássaros.

Parar junto ao seu tronco
é erguer toda a meditação,
reunir todo o desapego,
adivinhar o calor de todos os ninhos,
juntar a solidez de todos os cuidados.

Uma árvore é o bosque.
Mas para isso é preciso
que um homem seja todos os homens.
Ou nenhum.


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