sexta-feira, abril 20, 2018

Roberto Juarroz V


A iniciativa da minha sombra
ensinou-me a ser humilde.
Ela desenha-me de forma indiferente
sobre os gastos assentos
dos comboios da madrugada,
sobre os muros sem costuras dos cemitérios
ou sobre a penumbra dos atalhos
que atraiçoam a cidade.

O contorno não interessa
nem tampouco as mancas epígrafes.
A minha sombra desmente-me a cada passo,
despista-me ao virar de todas as esquinas
e não responde às minhas perguntas.

A minha sombra ensinou-me a adoptar outras sombras.

A minha sombra soube colocar-me no meu lugar.

...


Devemos conseguir que o texto que lemos
nos leia.
Devemos conseguir que a música que escutamos
nos oiça.
Devemos conseguir que aquilo que amamos
pareça pelo menos amar-nos.

É preciso demolir a ilusão
de uma realidade com um só sentido.
É necessário por agora
que cada coisa tenha pelo menos dois,
ainda que no fundo saibamos
que se algo não tem todos os sentidos
não tem nenhum.

Devemos conseguir que a rosa
que acabámos de criar ao olhá-la
acredite em nós por sua vez.
E conseguir que logo
engendre de novo o infinito.

...


Tenho um pássaro negro
para que voe de noite.
E para que voe de dia
tenho um pássaro vazio.

Mas descobri
que os dois se puseram de acordo
para ocupar o mesmo ninho,
a mesma solidão.

Por isso, às vezes,
tenho por hábito tirar-lhes esse ninho,
para ver o que fazem
quando lhes falta o retorno.

E assim aprendi
um incrível desenho:
o voo incondicional
no absolutamente aberto.

(para Laura, todavia)

...


Edificar por uma vez só um dia totalmente claro
e deixar que nos seus múltiplos e abertos aposentos
cada forma se comporte como quiser.

Que a mão mude então a sua imagem
e o pássaro a sua
ou que ambos troquem os seus ofícios
de encurralar partículas do ar.

Que o tempo caceteiro fique a um canto,
baixe a sua voz a morte
e o relógio da torre
comece a andar para trás ou à deriva
ou se proclame nuvem e abandone o seu poiso.

Que hoje deixe a sua forma de ser hoje
e tome a forma de ser sempre
ou pelo menos a da água,
uma água transparentemente só,
um resumo da água.

Que as coisas escapem das suas formas,
que as formas escapem das suas coisas
e que voltem a unir-se de outro modo.

O mundo repete-se demasiado.
É hora de fundar um novo mundo.

...


Os objectos começaram a estalar por sua conta,
como se estivessem fartos do insuportável ascetismo
de carecerem de vida.

Assim um vaso parte-se sem que ninguém lhe toque,
um quadro desloca a sua moldura,
os armários espalham-se em esconderijos autónomos
e as gretas da casa do homem
crescem com maior rapidez,
como se perseguissem uma arquitectura diferente
ou quem sabe um habitante diferente.

Assim também as pedras saltam sobre as árvores
e rompem como se fossem frutos ao cair,
o bulbo da lâmpada queima-se
enquanto está apagada
e os lápis abrem-se sem uso
e abandonam a sua medula mineral
de alheada grafite,
renunciando à sua inerte função
de transladar a um baluarte mais seguro
a esquiva corrente que arrasta as palavras.

Talvez um inesperado tropeço do imóvel
tenha levado os objectos
a imitar a promíscua vacilação do que está vivo
e a estatura quebrada e desacompanhada da morte.
Ou talvez se trate tão-só de uma falha
na continuidade de uma forma extraviada
ou do contraditório cansaço
da parte mais quieta do discurso das formas.

Seja como for,
ainda que os objectos estalem por sua conta
até que o mundo se faça em pedaços
ou mesmo quando possam estalar para dentro
e de certo modo esgueirar-se do mundo,
não poderão abolir o abismo
que sempre separou a mão das suas múltiplas sombras
ou o pé da suposta curva da estrada.

E acima de tudo seguirá o seu errático impulso
o fio da solidão
que hipnotiza com a sua cegueira sem trevas os objectos:
pensar,
pensar com eles ou sem eles.

Pensar:
deitar vazio sobre o vazio.

...


Derrubamo-nos
sem perder sequer o hábito dos nossos gestos,
por exemplo manter os olhos abertos,
a mão na posição que toma quando amamos,
o osso no seu silêncio,
a boca na iminência
de dizer ou calar algo.

Talvez nos derrubemos
sem que caia o que cada um é
e isso siga flutuando como uma série de espasmos
algo mais furtivos pelo ar.

Pode ser que os gestos que se aprendem não se percam,
mas o aprendiz sim.
Se assim é,
talvez uma palavra entre muitas
possa ter sido dita para sempre.

...


Estão a ditar-me coisas,
mas não de outro mundo ou outros seres,
antes, mais humildemente, de dentro.

Mas quem está dentro,
além de estar eu?
Ou talvez não esteja eu
e tenha deixado o meu lugar
para que outro me dite?

Se isto é assim,
não importa que o ditado
ninguém o compreenda.
Não importa nem sequer
que o compreenda eu.

Ser não é compreender.

...


Insistir demasiado em si mesmo
é gastar sem sensatez a substância do mundo
e abusar da luz e seus reflexos,
da dosagem aberta do olhar,
da distribuição das cores
e também do coração das trevas.

Talvez fosse preciso
moderar, recortar o existir
e deter a prepotência de ser-se um.
E que isso nos permitisse morrer menos
ou simplesmente não ficarmos sem fundo,
como patéticos odres
que não souberam conter o seu vinho.

Insistir demasiado em si mesmo
é transtornar as figuras visíveis
e sujar as invisíveis
com o redutor alcatrão da nossa fúria.

É preciso insistir noutra parte,
por exemplo ali onde as linhas retrocedem
e as mãos se aguentam
para evitar o tacto sem regresso.
Ou além, pelo menos,
onde sentimos como se desgastam
a pele tenaz do pensamento,
as secreções de todos os amores
e as solitárias metafísicas
dos nossos últimos sapatos.

Sim. É preciso insistir noutra parte.

...


Trazer o horizonte ao nosso lado,
içá-lo na rua como uma bandeira,
incendiar com o seu corpo nu
o ar, o coração e os cantos
e fechar as janelas para que não desapareça.

Iniciar então a sua conversão,
até pô-lo firmemente de pé,
como uma árvore ou um amor desvelado.
E colocar o horizonte na vertical,
numa fina torre
que nos salve pelo menos o olhar,
até acima ou para baixo.

...


Morrer, mas longe.
Não aqui,
onde tudo é uma avessa
conspiração da vida,
até as outras mortes.

Morrer longe.
Não aqui,
onde morrer é já uma traição,
mais traição do que em outra parte.

Morrer longe. Não aqui,
onde a solidão descansa aos poucos
como se fora um animal estendido,
travando o seu impulso de loucura.

Morrer longe.
Não aqui,
onde cada um dorme
sempre no mesmo sítio,
ainda que desperte sempre noutro.

Morrer longe.
Não aqui.
Morrer onde ninguém nos espere,
onde haja lugar para morrer.

(para Jorge Luis Borges)


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