sexta-feira, abril 06, 2018

Roberto Juarroz IV




Prólogo

As palavras não são talismãs.
Mas qualquer coisa pode
ser transformada em poesia
se tocada pela palavra indicada.

Não se trata de magia nem de alquimia.

Trata-se de pensar de outro modo as coisas,
tocar e senti-las de outro modo,
abandonar as palavras que a usam
e dar espaço às palavras que a cantam,
as palavras que a elevam no vento
como flores desembainhadas pelo assombro.

Estacas convertidas em estrelas,
sapatos para calçar crucificações,
cegueiras abertas nas costas do dia,
visões reservadas para voltar a despertar,
ternuras que se adiam para salvar o amor.

Trata-se simplesmente de criar outra voz:
a voz ausente dentro das coisas.

...

Uma rede de olhares
mantém unido o mundo,
não o deixa cair.
E ainda que não saiba o que se passa com os cegos,
os meus olhos vão apoiar-se numas costas
que podem ser as de deus.
Seja como for,
eles buscam outra rede, outro fio,
que vai de olhos fechados com um traje emprestado
e descola uma chuva já sem solo nem céu.
Os meus olhos buscam isso
que nos faz tirar os sapatos
para ver se há algo sustendo-nos por baixo

ou inventar um pássaro
para averiguar se o ar existe
ou criar um mundo
para saber se há deus
ou pôr um chapéu
para comprovar que existimos.

...


O fundo das coisas não é a vida ou a morte.

Provam-me isto
o ar que se descalça nos pássaros,
um telhado de ausências que acomoda o silêncio
e este olhar meu que se revolve no fundo,
como todas as coisas se revolvem quando acabam.

E também mo prova
a minha meninice que era pão anterior à farinha,
a minha infância que sabia
que há fumos que descem,
vozes com as quais ninguém fala,
papéis onde o nome fica imóvel.

O fundo das coisas não é a morte ou a vida.
O fundo é outra coisa
que alguma vez irá além da margem.

...


Nocturnamente único,
o coração, sem pescoço, na cabeça,
caminhas pelo mundo com um traje sonoro,
sabor vestido de águas vivas,
esmagando a lua sépia dos mortos.

Andança que é estar,
sem girassol nem túmulos para os astros,
um pé raiz e outro é nuvem,
os olhos coração palavra coisa,
as mãos animais
na sua selva de mãos.

E entre corvos, aleijados e instrumentos,
teu punho na montanha de ser alguém,
desperto ainda que durmas,
aclarando a palavra homem
no lugar humano da dúvida de tudo.

Ao ver-te, sim, lembro-me.
Não interessa de quê, de quem: lembro-me.
A pele é um vento sólido
que comunica por dentro e fora
com a pele.

...

A sinceridade dissimulada da noite
guia as gotas de chuva
até à atenção exemplar das coisas
e uma sílaba antiga,
uma gota de homem,
humedece as paredes porosas do pensamento.
Borboleta de pedra viva
que recolhe a cor de uma estrela apagada
para enunciar o tecido ardente
onde o pensamento é pasto das coisas,
torre de alimento
para a fome intersticial e alerta.

Pensar é como amar.

...


A morte é outro fio da trama.
Há momentos em que poderia penetrar em nós
com a mesma naturalidade que o fio da vida

ou o fio do amor.
O tecido completar-se-ia então quase ternamente,
quase como se nós próprios o tecêssemos.

Há momentos para morrer.
Há momentos
em que o fio da morte
nos desfaz o tecido.

...


Um amor mais além do amor
por cima do rito do vínculo,
mais além do jogo sinistro
da solidão e da companhia.

Um amor que não necessite regresso,
nem tão-pouco de partida.
um amor não submetido
às fúrias apaixonadas de ir e voltar,
de estarmos despertos ou adormecidos,
de chamar ou calar.

Um amor para estarmos juntos

ou para não o estarmos,
mas também para todas as posições intermédias.
uma amor como abrir os olhos.
E quem sabe também como fechá-los.

...


Agora tão só, neste pobre rosto em que te desfazes,
vi o rosto da menina que foste
e senti-te várias vezes minha mãe.

Senti-me o filho dos teus jogos,
do mundo que criavas e esperavas
como um pobre presente de aniversário.
E também dos sonhos que nunca confessaste
para que mais ninguém sofresse por eles.

Senti-me o filho dos teus primeiros gestos de mulher,
esses que também tinhas querido ocultar
e até te ocultaste,
para abreviar no mundo a irrealidade do assombro.

Senti-me o filho dos movimentos
que me prepararam como um antepassado da morte,
desenho obcecado
pela inserção das suas escamas.

E senti-te logo
a circunferência do meu trevo atordoado,
o ângulo do compasso que se abria,
o mapa das minhas febres confundidas com viagens,
o búzio dos meus ecos de homem.

E senti-te ainda mais,
senti-te ir ao ponto de ser duas vezes minha mãe
para que eu não pudesse deixar de sentir-te
e saltar até ao teu deus ou às minhas mãos,
que talvez não sejam minhas nem de ninguém.

E agora, ao reconvir o meu salto,
para saltar novamente
ou talvez para aprender a dá-lo passo a passo,
reencontro-te ou encontro-te a ti minha mãe,
ainda que já sejas apenas tua.
Demorei muito,
demorei todas as mulheres
e também todos os homens,
demorei o tempo interminavelmente largo
da vida interminavelmente breve,
para ir ao ponto de ser várias vezes teu filho.

(à minha mãe)

...

Gastar por antecipação o tempo da morte,
consumir o silêncio do futuro
como uma flor enterrada,
viver a crédito
da eternidade imparcial que nos espera,
pôr entre as manhãs e as tardes
algo mais digno de fé do que o meio-dia
e aprender a pôr termo às palavras,
ainda que apareçam encostadas.

Talvez assim a morte dure menos,
a vida use outras portas
e não se cansem tanto
os olhos que nos buscam.

...

O homem é sempre
o construtor de um cárcere.
E não se conhece um homem
até se saber que cárcere construiu.

Algumas vezes parece ser só o seu,
mas é também sempre o dos outros.
E não lhe basta construir a prisão:
proporciona também o carcereiro.

O único que o homem não põe
é o material para fazer a prisão,
porque há de sobre em todo o lado.

Mas há outra coisa
que não sabemos quem põe:
o combustível para o incêndio.

Porque se todo o homem é a história das suas cadeias,
a lamentável história de um ex-presidiário
que volta à sua prisão

ou inaugura outra,
às vezes é também a história de como se queimou
ao incendiar a maior das suas prisões.
Ou nem sequer a maior:

a que tinha chegado ao limite.


(a Carlos y Marcela)

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