sexta-feira, abril 06, 2018

Roberto Juarroz III


Tu não tens nome.
Talvez ninguém o tenha.

Mas há tanta fumo disperso pelo mundo,
tanta chuva imóvel,
tanto homem que não pode nascer,
tanto choro horizontal,
tanto cemitério abandonado,
tanta roupa morta
e a solidão ocupa tanta gente,
que o nome que não tens me acompanha
e o nome que ninguém tem cria um sítio
onde a solidão está a mais.

...


Buscar uma coisa
é sempre encontrar outra.
Assim, para achar algo,
há que buscar o que não existe.

Buscar o pássaro para encontrar a rosa,
buscar o amor para dar com o exílio,
buscar o nada para descobrir um homem,
andar para trás para seguir adiante.

A chave do caminho,
mais que nas suas bifurcações,
seu suspeito começo
ou seu duvidoso final,
está no cáustico humor
do seu duplo sentido.
Chega-se sempre,
mas a outra parte.

Tudo se dá.
Mas de forma inversa.

...


Pensar é uma incompreensível insistência,
algo parecido com alargar o perfume da rosa
ou fazer furos de luz
numa porção de treva.

E é também transbordar algo
numa insensata manobra
a partir de um barco inabalavelmente afundado
numa navegação sem barco.

Pensar é insistir
numa solidão sem retorno.

...


Se um de nós não é igual ao seu despertar
se o despertar o excede
ou se é menor que ele,
quem ocupa a diferença?

E se um de nós não é sequer igual ao seu dormir,
onde fica esse seu pedaço desperto
ou que outra coisa dorme ao nosso lado?

O signo igual parece às vezes
a duplicação ensimesmada
do de menos.

...


Enterraremos tudo,
os braços, o movimento e a pá,
a paixão das sextas-feiras,
a bandeira de andarmos sós,
a pobreza, essa dívida,
a riqueza, essa outra.

Enterraremos tudo até com sabedoria,
cortando sabiamente as porções,
ou cortando-as sem nos darmos conta, sabiamente.

Um resto de olhar
ficará flutuando como um pincel absurdo
sobre a trégua duplamente fiel de toda a ausência.
E o menos mal é que não haverá ninguém
para escavar logo bem fundo
e descobrir que não há nada enterrado.

...


Um caos lúcido
um caos de janelas abertas.

Uma confusão de vertigens claras
onde a incandescência se constrói
com o movimento total da ruptura.

Viajar pelas linhas
que se quebram a cada instante
e rodar como um êmbolo sem guia
para os núcleos aleatórios
das desistências originais.

Tocar as vértebras sem eixo,
os círculos sem centro,
as partições sem unidade,
os choques sem contato,
as quedas sem esquadro,
os pensamentos sem quem pense,
homens sem outro rosto que a sua dor.

E recolher aí a lei do casual,
a norma do impossível:
cada forma é uma ponta afiada do caos,
um ângulo perplexo dos seus olhos abertos,
os únicos abertos.

Porque o caos é a trégua do nada,
a lucidez sem compromisso,
a interseção afiada
de um espaço sem interesse pelos objectos
e de um tempo pensante.

...


Alguns dos nossos gritos
detêm-se ao nosso lado
e olham-nos fixamente
como se quisessem consolar-nos de eles mesmos.
Algumas palavras que dissemos
regressam e ficam ao nosso lado
como se quisessem convencer-nos
de que chegaram a algum outro lugar.

Alguns dos nossos silêncios
tomam a forma de uma mulher que nos abraça
como se nos quisessem secar
o suor da ternura solitária.

Alguns dos nossos olhares
regressam para se comprovarem em nós
ou talvez para permitir que nos olhemos de frente
como se quisessem demonstrar-nos
que o que nos acontece
é uma cópia do que não nos acontece.

Há momentos e talvez até uma idade da nossa imagem
em que tudo o que dela sai
retorna como um espelho para confirmá-la
na própria constância das suas linhas.

Assim se vai integrando
o nosso povoado mais secreto.

...


O sino está cheio de vento
embora não soe.
O pássaro está cheio de vôo
ainda que esteja quieto.
O céu está cheio de nuvens
mesmo que esteja sozinho.
A palavra está cheia de voz
ainda que ninguém a diga.
Todas as coisas são feitas de fugas,
ainda que não haja caminhos.

Todas as coisas fogem
em direcção à sua presença.

...


Também o infinito
Tem uma direita e uma esquerda.

Os deuses estão sempre à direita,
embora às vezes talvez se lembrem do outro lado.
O homem está sempre do lado esquerdo
e não pode recordar o outro lado.

Mas também o infinito
costuma dar voltar no ar como uma moeda,
que não sabemos quem lança
com os seus giros de sarcásticas guinadas.

E assim às vezes trocam-se os papéis,
mas não seguramente a memória.
O homem é o reverso do infinito,
embora o acaso o volte por um instante para o outro lado.

(para Michel Camus e Claire Tiévant)

...


Toda a nomenclatura é triste.
Cheira a campos murados,
a sequências de lúgubres adeuses,
a passos que esmagam,
a papéis manchados,
a descarnadas corrosões.

Ainda que se enumerassem os anjos,
ainda que as rosas fossem amontoadas,
ainda que os amores fossem indexados.

Toda a nomenclatura trava
a videira azul
cujos brotos demonstram
como o silêncio é um verbo.

Toda a nomenclatura atrasa
o relógio sem quadrante
do ritmo que é a vida.


Sem comentários: