quinta-feira, abril 05, 2018

Roberto Juarroz II



A densidade do que não existe,
a força do que não se tem
provoca remoinhos na água da vida
e cria um som de fundo
para todos os gestos.

Até o tecido preto da morte
tem um pálido fio
onde a trama cede e se aligeira
porque lhe falta morte.

E até o que nunca se viveu
e nunca morrerá
se acumula na greta de uma ausência
que o seu corpo lhe empresta.

A pedra do não ser,
a certeira condição negativa,
a pressão do nada,
é o último apoio que nos resta.

...


Todo o salto volta a apoiar-se.
Mas nalgum lugar é possível
um salto como um incêndio,
um salto que consuma o espaço
onde deveria terminar.

Cheguei às minhas inseguranças definitivas.
Aqui começa o território
onde é possível queimar todos os finais
e criar o próprio abismo,
para desaparecer caindo para dentro.

...


Há mensagens cujo destino é a perda,
palavras anteriores ou posteriores ao seu destinatário,
imagens que saltam do outro lado da visão,
signos que apontam mais acima ou mais abaixo do seu alvo,
sinais sem código,
mensagens envoltas noutras mensagens,
gestos que chocam contra a parede,
um perfume que retrocede sem voltar a encontrar a sua origem,
uma música que se derruba sobre si mesma
como um caracol definitivamente abandonado.

Mas toda a perda é o pretexto de uma descoberta.
As mensagens perdidas
inventam sempre quem deve encontrá-las.

...


Há poucas mortes inteiras.
Os cemitérios estão cheios de fraudes.
As ruas estão cheias de fantasmas.

Há poucas mortes inteiras.
Mas o pássaro sabe em que último galho pousa
e a árvore sabe onde termina o pássaro.

Há poucas mortes inteiras.
A morte é cada vez mais insegura.
A morte é uma experiência da vida.
E por vezes são precisas duas vidas
para poder completar uma morte.

Há poucas mortes inteiras.
Os sinos dobram sempre o mesmo.
Mas a realidade já não oferece garantias
e não basta viver para morrer.

...


O material com que se constroem as palavras
e a argamassa que o une
foram-me ensinando a pouco e pouco
um ritmo secreto e solitário.

Aprendi assim que toda a construção é uma música
e que toda a música é feita de olhares.
O olhar de uma palavra é o seu sentido,
entre as pálpebras tremidas de uma perda.

Porque não somos nós que olhamos as palavras:
são elas que nos olham a nós
e quem sabe também mais além de nós,
piscando os olhos com um ritmo secreto e solitário.

Talvez amanhã encontre uma palavra
que já não olhe para nenhuma parte
e que nem sequer pisque os olhos.
Uma palavra que se deixe olhar.

...


Descer o céu à terra,
onde sempre devia ter estado,
não para abusar da luz,
mas para desarticular o galpão da impotência
e abolir as razões
que pervertem o caminho da alegria.

A música perceptiva das estrelas
será adoçada na quena de um índio adormecido
e na sonoridade das ternuras,
enquanto de cada sombra nasce um duende
para exercer o ofício imprescindível
de apagar as datas de todos os epitáfios.

Não sabemos se viver é uma debilidade ou uma força,
mas sabemos que é uma mensagem escrita.
E essa mensagem só terá sentido
ao descer o céu à terra.

Além disso, a terra não sabe o que fazer com os mortos,
e baixar o céu à terra
poderia servir pelo menos
para corrigir a morte.

...


Bebo-me no copo de água com que atenuo a minha sede.
Escuto-me no final da palavra com que nomeio o mundo.
Aguardo por mim atrás da porta a que bato.
Recordo-me na substância do esquecimento com que me escondo na minha memória.
Soletro-me como um sonho silábico
no olhar com que me lêem os teus olhos.
Reconquisto-me investigando a ciência da perda.
E só reconheço a minha canção e a minha sombra
na arte secreta dos caminhos apagados.

Pude aprender, antes de me ir,
a não me deixar desenhar pela silhueta seca do homem.

...


As coisas imitam-nos.
Um papel arrastado pelo vento
reproduz os tropeços do homem.
Os ruídos aprendem a falar como nós.
A roupa adquire a nossa forma.

As coisas imitam-nos.
Mas no final
nós imitaremos as coisas.

...


Os poemas inacabados,
os poemas que se abandonam como uma derrota,
deixam as suas imagens nalgum canto desconhecido
onde pouco a pouco se vai formando solitário outro poema,
um poema que talvez um dia encontremos.

Assim nascem as formas na noite,
como criaturas aparentemente descartadas.
E não precisam de uma manhã que seja
para que se dêem a ver à luz.

As linhas da germinação e da espera
desenham intraduzíveis hieróglifos
sobre a pele que separa em todas as partes
o silêncio e a palavra.

Até que chega a conjunção reparadora
que veste com essa pele o novo corpo
e recolhe as antigas imagens,
porque nenhuma imagem se perde.

...


Tenho tido deus de sobra.

Devo recortar os seus contornos
e recuperar a fala,
antes que se apaguem os meus limites.

Devo reconhecer uma vez mais o campo
e dizer-me três ou quatro palavras,
antes que tudo se unifique.

Devo transplantar o que amo
e assegurar-lhe pelo menos uma fonte,
antes que me vire de costas.

Devo salvar algumas coisas,
ainda que não me salve,
antes que tudo se perca.

E para isso é preciso
que deus me vá faltando.


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