sábado, março 10, 2018


A casa tem a boca no meu ouvido
e dita a antiga doença das estações
nomes esquecidos que trazem
o breve colapso, a doce anatomia
dos lençóis sobre os móveis
como tristes amantes
que a família, o bom nome
separaram, o que diria a vila
esses ossos hoje juntos como de um
gigante assassinado que hoje tem já
os restos diluídos no orvalho

a sensação de afogamento nas coisas
o leme oculto que tomo distraído nas mãos
andando pela oficina, viro os teus livros
os óculos partidos sobre o jornal
lendo tudo errado, alguma fantasia
que perseguiste como mais ninguém
rumo sempre a um frio maior

vejo a luz que te serviu indecifrada
pelos cantos, e já sem as oferendas das Musas
é provável que se alimente de moscas
tem passado a limpo as tuas coisas
e isso ou o abandono da alma
tornou mais duro mais leal o sentido
e o passado crescerá em volta dessa queda

caídos na correnteza, cabeça aberta por um lanho
há cadáveres subtis com o seu cheiro de água doce
suicidas dando o nó com a corda
do fim do mundo irão ficar para a história
mal contada dos piores amigos
a noite põe um dedo nos lábios dos outros
quem tem horror, sente a falta
há um baque nesta cópia de luz,
um jarro igual noutro quarto
a abelha esmagada no bolso dele
breve belo tão sensível
a homenagens nocturnas, cardíacas
como a da flor que secou murmurando
no meio do livro os mesmos versos
e poderia tê-lo identificado pelos dentes
se tivesse antes morrido de fome
noutra língua, anónimo

o poço ficou mais fundo
e compõe ecos para toda a região
nos caminhos um rumor vive
mastigando pedras,
o vento apanhou a sarna dos cães
coça-se nos letreiros desbotados
lendo restos de palavras, essas direcções
por onde um país perdido se estende

essa terra eu só ouvi de ti, deslocando-se
nas tuas palavras, memórias,
e ainda que nunca lhe ponha os olhos
em cima, um dia irei a enterrar
também aí, a teu lado, anónimo.

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