sexta-feira, janeiro 19, 2018


Já o rastilho pouco me interessa
e imagino que motivos se deu Napoleão
a ver filmes de guerra, encher o caderno
de notas, o quarto lembra uma enfermaria
com a barafunda agonizante,
gestos a mais, as cordas do corpo
partidas, e quantos ossos debaixo da página?
Os que se aproximam da alucinação
na fila da morfina, atrás de mim
devagar alguém dobra a farda
abre os fechos à mala e uma espécie
de nevoeiro fica por ali,
não há centro e de noite é pior
a noite traz um balanço
capaz de trocar a ordem dos ossos.
O mundo é uma redução gradual
da luz, não sei já onde o li
mas cada um se agarra ao que pode
memórias, retratos, os baldes da chuva,
vasos de flores – pela manhã
tudo finge recomeçar.
Do sonho da sede este tirou
as indicações para abrir um poço,
se viver. Por via das dúvidas
fez-me um desenho, encheu
de pormenores escolhidos a preceito
os passos que já lhe oiço marcando
a distância da casa, do lugar onde jazem
as velhas luas, onde um muro
divide duas épocas. Outro pede-me
que acabe com isto, que lhe dê
uma dose letal, que o apague:
“Que tristeza doutor, tudo isto
para quê... por uns versos?"
Trago o caderno para a cozinha
dividindo com as tangerinas o esforço.
Da vida brusca que sei eu? Abro uma janela
vejo o horizonte desmanchar navios,
se me aborreço organizo lutas de cães
mas com espécies aladas,
dias num vaivém indescritível
a dar de beber indistintamente
indo de cela em cela, nuns fiapos
de romances históricos, colecionando
fatalidades, últimas palavras,
quase me esqueço porque comecei,
quantos dactilógrafos trancados
numa mansarda, e para quê?
Como quem força a mão de um deus,
vivo debruçado em poços a escutar
os céus, raízes ardentes, altas caçadas
a poeira que mais alto se levanta, e dentro
o inferno das coisas inventadas,
de mãos juntas, umas vezes suplico
um tremor que possa apaziguar-me,
outras cuspo nelas três vezes
como um velho soldado,
e sigo em direcção ao desconhecido
sabendo que tragédia nenhuma
me encheria hoje as medidas.

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