sexta-feira, julho 21, 2017


Uma vez em cem tiro os cães todos, os cartuchos, a espingarda podre e vou atrás da linha final para um início sem a menor hipótese, como fazem os doidos que não conseguem saltar do cavalo de um pensamento e tudo se ri deles como ribanceiras, alturas de onde se mandar e vir fazer em mil cacos, um gargarejo é o suficiente para subir de tom, firmar uma ordem, mandá-los atirarem-se debaixo de um carro, se algo nos separa é subir as escadas, vou ensacando um mal estar ao longo de dias, raspo, faço ferida enquanto não me atiro lá dentro eu próprio, tiro a lupa, foco o sol num ponto, cozo formigas, escalo um detalhe até gelar debaixo das neves dos himalais, concentro-me num pormenor até que me dê vertigens, como se lhe puxasse as tripas, sempre para pior, parece que os oiço acusarem-me de ter ido até ao fim, feito o pior a alguém, e não faço puta de ideia, o advogado manda calar, o mais aconselhado, e eu legítima-defesa, eu juro, juro, mas não sei afastar-me, detesto sabendo que alcanço essa expansão de sentidos de um tísico, e além dos ratos que oiço por trás das belas manifestações da época, consigo inspirar de uma golfada o cheiro que de certos seres se liberta ofensivamente e nos revela o futuro que os espera, detesto e assim oiço os passos com que se chega o amor, a distância de que se põe a espiar-nos, nessa sombra herdada de um velho jogo de paciência, pondo em ordem as mais descamisadas das nossas suspeitas, como vem narrar até esbater o ritmo que nos dobra o pulso, esse jeito cardíaco de se cair de joelhos, cair sobre o som que se faz, bam-bam, um tiro suave entre paredes, uma bala agora, a outra mais tarde, as duas escavando para se encontrarem dentro de nós, isto, pôr a peste nas coisas simples, quando ninguém estava a contar, quando em quartos poluídos um destino mais nobre se recusa a ouvir-nos, os planos todos, o discurso frente aos juízes, tiram-nos até esse gosto de perdão nas coisas de que nos servimos ritualmente, a escova, as lâminas de barbear, "uma máquina de costura, um ferro de engomar, um dado, uma luva, um sapato, um copo de leite", depois o corpo ainda tem a confusão dos gestos, sinais de si a si mesmo, como às vezes se fica tão quieto repetindo uma ou duas sílabas com a cabeça entre as mãos, a ouvir passar o comboio dos sinónimos para uma coisa que não queremos dizer, eu vi-me dias de costas, lavava as mãos com gestos firmes, uma vez e outra, demorando, como se segurasse alguém debaixo de água, tinha alugado um quarto de estudante, tinha a secretária contra a parede, um maço de folhas, e era no branco que me punha a trabalhar na máquina, a tirar-lhe peças, um texto em revisões, as confusões de quem quer limpar e já não se entende no meio dos ecos todos, o que deu foi para servir o reflexo mais sujo, tomar o pó das coisas, as próprias emendas à mão punham sela umas às outras, uma candeia balouçando onde devias ter o ponto de final, impondo uma ordem de recolher, mas se algum verso alguma vez se deixou segurar isso foi depois de teres perdido a fala, a respiração, depois de estrangular um canário para arrepiar o estilo, levámos a coisa a tal ponto que no lugar de qualquer pacto tínhamos feito um corte na língua para que cada frase viesse mais cedo, atalhando, e apressasse também os rios e os sóis, era necessário explicar de novo a inquietação às paisagens, tomar à queima-roupa tudo, vir reclamar as posições cedidas pelo turno de bandalhos que nos antecedeu, puxar de volta o fogo, "engolir água do mar como cerveja", engolir o balanço disto tudo, conhecer o risco dessas idades fatais, essas tristes coisas que se dizem, e como depois delas se apodrece com o balanço dos próprios passos, ter alguma intenção criminosa ao invés de uma preferência quanto à hora da morte, isto antes que a mosca tenha mais com o nosso destino do que as abelhas, levantar a pedra do pensamento, e ir colocá-la bem lá à frente, a limitar só a vida eterna.

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