quarta-feira, julho 26, 2017


Um tiro algures por aqui, como uma velha sensação que se tornou mais clara, mais próxima, ter sido um covarde tantos anos e ver a coragem chegar toda de uma vez, encostar a testa à parede, dar esta e depois a outra face, sentir o frio da carne e depois o dos ossos, se houvesse um jardim aqui perto, até onde iria?, há os dois ou três postais cansados do banco junto ao rio, só me lembro de ter amado as cidades de alguns escritores, sem visitá-las para não estragar, hoje fazem-me falta, ruas com ouvido para passos indecisos, capazes de fazer alguma coisa disto, a luz acesa a noite inteira, sem saber onde se deixou o que se leu ainda vivo, o que nos comprou mais uma estação, o gosto de falar a alguém, e hoje não passa de magoada erudição, morrer depois de acordar sozinho como quase a vida inteira, não ter nem a bengala de um gato para levantar-se, encher-lhe o prato, olhar o relógio com um veneno no sangue a apagar as velas uma a uma, duas palavras com os retratos, enfim a ternura que parecia perdida, que pena dos mortos por não ficar quem os ajude a atravessar o vazio, arrastar o copo, beber desde há uma semana o último gole, como a mão se torna a coisa menos certa, ser incapaz de um bilhete, ficar-se pelo verso de outro, não acordem o rouxinol que dorme no gume do bisturi, tão doce que traz uma presença à casa, ameaçador também, ao lado das dores de estômago que vão e voltam, o pêssego pousado sobre o jornal, ler alguma notícia até que o sumo cole o sentido das frases, adoce as entrelinhas, a coisa já não diga respeito a ninguém, um acaso caindo à margem deste zodíaco, esse lugar para onde se apanham comboios a qualquer hora, levantantando-se de qualquer banco e.

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