sexta-feira, julho 21, 2017


Antes de sair, a fantasia vestiu o fato de gente ordinária, deixou as pétalas descendo as escadas, fim de tarde fisgado, os passos todos antevistos, dava um pulo à mercearia, duas mãos cheias de cerejas, para adocicar o tom da conversa de si para si, um restinho de tabaco caso a brisa lhe viesse com novas e valesse a pena tomar nota, fumando, mais comum era sentir perro o alcance do bairro, cuspia os caroços, se estivesse a sentir-se maldosa cegava um pombo, mas sensação em relação às coisas gerais, só a de que o mundo encravou, puf, ralo com as existências inspiradas, mandou um postal a pôr por ordem as suas razões, a ela restava-lhe a varanda, a linha dos pássaros magicando novelas de duas notas que ficam para sempre no ouvido, terceiro andar de um prédio aflito de coceiras, ameaçando desabar, os gatos conversando com as alturas, espiando sem interesse nenhum a vizinhança, dali também ela deixava o rádio sintonizado noutra década, canções de protesto e utopias lo-fi, o passado amarelecido com um gosto a adolescência mesmo para quem nem era então nascido, foi a idade mais bonita, o desejo resumia-se agora a que coubesse tudo no quarto, esses gestos sórdidos de tão íntimos, o corpo era um luxo e isso foi antes de meterem nele os fantasmas que vêm depois de se pôr a dizer "eu", hoje que até a garrafa esmoreceu, o álcool recosta-se na cabeça, põe-se a insultar-nos, o que fica lá em baixo, ao nível comum, são ruas militares, a tal prisão descomunal, sem portas, não se consegue passar, e então a fantasia prefere o espelho, a possibilidade de passar um estranho e a levar é maior.

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