quinta-feira, julho 06, 2017


A narrativa, por fim, prefere ver-nos de costas. Uma noite arrisca: põe as fronteiras que atravessamos inseguros, sem documentos, meio estrangeiros, "as vozes simples como ventos", a olharmos de volta desde os confins do idioma. Toda a inspiração parece fútil agora e não a trocávamos pelo ritmo. A título de exemplo: em tempos um persa escreveu coisas maravilhosas sobre a embriaguez, mas nada afinal que se compare a esse puro terror estéril, o de uns poucos versos realmente confusos, de onde nenhuma figura sai. Só fantasmas. As próprias letras parecem trôpegas, turvam o olhar. Com quantas mãos uma só linha? Como a beleza de um verso assim faz tremer a terra inteira. E o esforço depois para levantar-se do lugar onde dormimos apenas uma vez, coser de volta a sombra ao corpo – quantos dias para despertar? A sensação de que uma sirene rasga a carne para que um navio morto a atravesse. E as noites depois: o colchão infectado em que tudo nos morde. Sim, sim. Já fizeste as voltas – "três gotas de valeriana, um copo de água de rosas" –, nada serve. Os sonhos já não são só nossos... Como ver chegar o que nos mata. Não, certamente, não queres envolver mais ninguém nisto. Foi já longe demais. Gente que sabe o teu nome, se serve dele como moeda para o cara ou coroa. Pagaste o preço – paguei dez vezes para dizer o que disse, mas observo as coisas à distância por vezes, desde uma espantosa pausa... faz um frio desgraçado. A minha vida, estes erros todos, tão esmerados. Tudo o que se aproveitou do curso do sangue. E acho que não teria paciência para recomeçar de novo. Se voltasse, abatia a paixão como a um cão nas traseiras disto. Tirava as luvas, atirava-as fora, e seguia como se nada me fizesse já a menor diferença.

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