terça-feira, maio 16, 2017


Ruínas das que ainda domesticam pássaros, janelas tão baixas, numa casa velha tudo se escuta, ouve-se mais do que se diz, os próprios ecos deixam a sua antiguidade e dão a volta cortando o caminho ao momento seguinte, pousam uma mão sobre a outra, o que já se passou inspira-se no que está prestes a dar-se, ditas por dizer, algumas frases alcançam anos depois um reticente e desolador significado, subtil como um acento, alguma variação devolve luz a certa divisão durante a noite, ruídos descosidos encontram uma cadência, o som de passos, a forma chega gradualmente, coisas que, lidas, nos deixam sem sono, a paciência educada entre murmúrios, lugares que deixam de existir de um instante para o seguinte, um espelho de vista tremida, este espaço todo beliscando-se, e para não deixar tudo em suspenso, se desse lado deixares cair um copo, partido no chão, o líquido formando ilhas, aqui as palavras terão ganho relevo, despertas do seu estupor, os sons separados, distintos, como se endurecidos, isto para provar esse gesto largo, essa força de relacionar as coisas, mas tu é que sabes até que profundidade sublinhas uma passagem, o momento que te põe em causa, e pergunto de que te serve essa inteligência, vivemos em segredo, quase pedindo desculpa ou odiando tudo, e não se pode fugir, amarrados aos próprios ossos, um animal fazendo um corte na pele, a ferida por onde escapar-se, e assim ter lido de tudo, por vezes até à perda dos sentidos, concebendo o seu próprio trópico, o país desdenhado, na base de deslocações, roubos medíocres, flores que vomitam beleza à meia-noite, trazer por um cordel a pata da natureza, amarrá-la nas traseiras, dormir pouco, acordar sempre de sobressalto, com o suor e as marcas no corpo, a tensão e os reflexos de um caçador, montando fragmentos extremos de um sonho, e o amanhecer depois, o não poder fazer nada, agarrar-se ao dever do anjo, a sua discrição, como gosta de sair absorvido entre cães vadios e pardais, conhece as ruas, o movimento, passa perto como a luz de um pensamento, frágil e sem margens, traça esses caminhos de dor e de mel, sente a lua dar a volta pelo outro lado, como nos educamos, ganhamos certos poderes, para ele as raízes que sabe onde cavar, como as arranca, quebra, expõe ao sol, que as seca e apura, fica de olho nesse fogão lentíssimo, o dia passa com a infusão a arrefecer numa chávena de lata, perfumando um princípio de noite, as mãos doem disso, e disto, também de te arrastar até cá fora, obrigar-me a olhar para cima como se fizesse diferença estarem lá estrelas em vez da luz que se perde entre palavras.

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