quarta-feira, maio 10, 2017


O corpo através do vestido, e nele uma velha mancha de outros dias canta o prazer tomado como tarefa, esta distância calculada, ora modesta, ora provocante. Nunca mais me deitei, nem quis tremer da mão à boca, da fala aos sentidos, ter prometido coisas para logo desaparecer, passar a noite nos claustros do deserto, conhecer uma mulher desejável pela última vez e olhar de perto a beleza com um certo fastio, como um pássaro no ombro dela, achar graça e deixar o assunto, não abrir o mapa corsário, não divisar estratégia alguma, ouvi-la falar a língua de ontem, passar o tempo como contas num fio, estar ali ou na frágil presença do que se recorda, desapertar as botas, abrir a janela ao gato, tirar da estante dela um livro que há muito perdeste. Imagino que em vez de mobilar o quarto, tenha a colcha no chão, o que vai e volta nos bolsos, a uma certa altura a laranja pintando um contraste doce naquela brancura toda, ela ensaiando a rapariga com um brinco de pérola e outros menos identificáveis para ti enquanto se põe eterna para o seu artista holandês. Dá-me trabalho sair dali, colho aquele fruto que conserva parte da sua flor, para esmagá-lo e prender o gosto entre os dedos e o verso, horas acordado para ver deflagrar um tumulto qualquer, até sentir o buraco, a substância que a fome prende à distância. Quis estudar nos livros o coração das baleias, tremer de ter passado anos a dormir encostado a grandezas de toda a espécie, ter tido as vidas para sonhar em grego antigo, sânscrito, línguas mudadas em pássaros. Na herança que eles tanto dividem, ouvir a mosca inebriada de se ter empanturrado nas entranhas de um deus carcomido. Um tipo sai da sua cela e o mundo parece-lhe atroz no desperdício que faz do espaço, tudo repetido, igual, ainda nos censura o amigo que fizemos sem querer, falando alto, mostrando-lhe a letra, restos de prosa, mau sangue, insultos, esta raça podre de indiferença contra a qual cuspiste os dentes e, agarrando um raio, te atiraste à folha e sentiste a árvore, a seiva, as raízes, as farpas na pele quando lhe rachaste o tronco, aprisionando o fogo na tinta, um desses venenos de torneira mal fechada, pingando nos fundos da língua, a desmembrar-lhe o silêncio.

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