segunda-feira, maio 22, 2017


Antes sentava-me, dizia-lhe quero um café e que chova, mas há um bocado ouvi-a mal tocada e melhor assim, a sensação foi de que trocava a chuva toda, o que já fez por mim, mesmo que pudesse escolher a hora, deixava-a num balde à porta do senhorio, numa mala com toda a roupa que nunca mais secou, trocava-a se pudesse ter tido as primeiras notas da gymnopédie n.1, a bem do meu nome, ser encontrado morto nela, como se até o sangue pudesse calar-se, o próprio movimento quase se suspendesse, ouvi-la antes que ao mundo fosse dada nota deste cadáver deliciado, ter adormecido com o grilo no bolso e esmagá-lo assim, tê-la no quarto como uma infiltração, a mancha dando conta da parede, a pingar na carpete, na bacia, água querendo levantar-se como um animal ferido, o desejo estafado, a prova de que se foi mais longe uma noite que mil antes de ti, aquela espera toda e a rua a fazer-se de forte para não chorar, com barulhos inexplicáveis atrás de si, a cabeça apodrecida, cheio de dores no sangue, tocando devagar, deixando cair cinzas, aprender com as formigas como chegar a velho um animal disperso, e ninguém dirá que fomos exactamente deste tempo ou daquele, a cidade evacuada, o vento que entra connosco nos lugares e encontra tudo largado, sentar-se como a noite, ao fundo, fazer o seu espectáculo, impedir que acabe o mundo com uma mão nas teclas como num ombro, continuar as frases de outros, quando os homens reduzem a sua história a duas ou três palavras, saber algo tão profano e sincero, um sentido danado, pobre e firme, ter-se escrito o que dava, o que foi possível para ver-se o fim de si mesmo, reunir as mãos que tivemos, os passos às voltas nesta terra entre todos os seres que não sabem fazer dinheiro, não sabem fazer grande coisa, anjos ineficazes, ser enfim dos tais a quem qualquer nome serve, que se deixam chamar no lugar dos outros, se chamam como toda a gente Erik Satie, saber como toda a diferença está nessas notas que podem repetir-se e quanto mais cansadas melhor, uma eternidade por onde se fosse sem ter de passar por deus.

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