segunda-feira, maio 01, 2017


and even if it's sunday may i be wrong 
for whenever men are right they are not young 
e. e. cummings

Pouso sobre a mesa este caroço de sangue, de tanta hora roído, meu batedor de terras absurdas. As sombras disputam-no, como fizeram com os nossos passos, tirando-lhes qualquer medida do mundo. O quarto parece especialmente silencioso hoje, já bebi um copo e a chuva voltou a enchê-lo, a mão pôs-se a tremer, que será? Para lá de obedecerem aos seus nomes, as coisas já mal se servem da convicção de serem reais, e eu, para dizer a verdade, não escrevo. Estes dias pinto, escutando o pulso, longínquo e interior, da raiz aos ares, entre as folhas, os nomes começam a respirar. Ela volta-se na cama, o perfume entrançado no tabaco sossega o quarto. Destapa-a, segura-lhe os pulsos, tira as ligaduras do peito, a história espera, aguarda que se organizem os detalhes numa descrição que, umas centenas de anos mais tarde, ainda nos absorva. Do pouco orgulho que tenho nos meus feitos, ainda me honra ter assinado a promulgação nocturna do Sol, ter trazido aqui gente tão diferente. Lisboa enfada-me cada vez mais. Antigas sirenes repetem horas vazias, estas linhas tremem de comboios lentos e tristes que vão em direcção a parte nenhuma. De boca junto ao vidro, quem pode ainda suportar o próprio reflexo? Quase acenamos, dizemos adeus, olhamos estes rostos como se abraçássemos estranhos, sem dizer nada, sem que haja outra vez. A expressão nula, os ossos frios, o gosto de um corpo, aqueles traços que levamos connosco, a voz que nos responde quando falamos sozinhos, quando escrevemos e alguém nos bebe no ombro água gelada. No caderno uma borboleta morta dilui-se em sombras ao longo das páginas, assim bate as asas, revela a composição da última cor. O que fica debaixo das palavras?, um fóssil parece, o tempo que falta para que as nossas coisas surjam entre velhos textos, a tosse ao fundo, as nossas leitoras, tão serenas, em quartos com vista sobre o campo no século XVIII. Também suspeito que aqui somos outra gente, como se o próprio sangue fosse cada vez mais longe, voltasse com estranhos hábitos e acabasse erodindo o coração. Isto: o que sobrou, um caroço que, enfiado na terra, talvez volte a encontrar a juventude nas palavras de outro, mas que a nós nos parece gasto.

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