segunda-feira, abril 24, 2017


Aprende a pronunciar correctamente a realidade, ouvia-se. Os que passávamos criando a nossa atenção éramos já de outra língua. Havia a fronteira desenhada por trocas de olhares; o que eu vi era menos do que eu sabia estar lá: cada forma sussurrando a outra no escuro, frases meio ouvidas, as coisas que lançávamos, rolavam de volta após uma pausa mais extensa ou menos, umas vezes até esquecíamos, de outras tirávamos ilações sobre a disposição do que nos segue tão friamente. Mas há guardas nas passagens, porteiros endividados, leitores de segunda ou poetas de merda. A cada tempo a sua Santa Inquisição, os que vestem o hábito, dão a missa, o pão triste que tanto mastiga os miseráveis. Já se aprendia só com o tédio a planear a evasão, fincar paus, um mastro no chão, prender velas a um pedaço de terra, levantar a casa, tirar a corda amadurecida, aguardar por ventos desses tão brutos que deixam o texto todo esgravatado, forçam erros de ortografia e marcar as estrelas nos pátios onde incompreensivelmente crescemos, deixar ameaças muito claras: se não dermos com nada havemos de regressar do lado da catástrofe, pior que antes, puros montecristos. Não aguento mais um dia desse copo, esse fundo do mar que tanto buscas, fazes o sinal da cruz, dizes que não te comoves já por nada deste mundo, como se te guardasses para o outro. Caída fora do sonho, a mão vai tirando notas, diz-nos o que havemos de esperar. Tinhas a imagem de um poeta grego que falava de homens a apodrecer em bosques fantásticos, tinham abandonado a perfeição técnica, não queriam nada com a rosa pública, mas buscavam a violeta desgrenhada nos cafés subterrâneos... Que eu saiba nenhum se interessava por dizer coisas estranhas, só não virávamos costas. Se, escavando, se achasse um osso inexplicável, uma composição extinta que fodesse com os catálogos, um esqueleto que atirasse de volta a imaginação à selva, então lá íamos: carabina, cachimbo, canhenho, o coração que cada um ainda pudesse suportar. Isto depois de ter subido às árvores para ver como os astros vigiam a cama às mulheres, ganhar-lhes um medo doce, de apreciadores discretos, seguir-lhes os passos matinais entre a erva que cresce mais depressa. Atava os cabelos dela a mesas e cómodas, nos lugares mais estranhos tirava um, nos buracos mais fundos, espalhando essa harpa aflita, que toco raspando o fundo de um cheiro, uma data num postal. Não me interessa mais nada, não fui saber onde pára. Estes, pelo contrário, acabam metidos num corpo só com elas. No escuro não têm nada, nem uma mala, falta-lhes a imaginação, julgam que vão morrer e, naturalmente, é disso que morrem.

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