sábado, abril 22, 2017


A coisa desfez-me o rosto, já não sei se filme ou sonho, desses muito tremidos, de ranger os dentes, a perder de vista a terra inteira, tudo a ficar minúsculo, mas a ela vi-a grande, junto ao rosto deteve um relâmpago e acendeu o cigarro, talvez o tenha lido, vejo agora o meu dedo a seguir o texto, ou foi-me descrito tão belamente?, borro tudo, então víamos a imagem sob grandes lentes, as partículas lixar a realidade a um nível subatómico, arrastava cada um o seu telescópio, da espera um tipo faz a sua especialidade, sabendo como a cada mil anos um rouxinol se engasga, cai morto num verso, este consumo de vidas, que órbitas nos resistem?, peritos em colher aves de voos muito antigos, figuras de louça, dar-se às ruas para perder-se das palavras, adoecer a vista, davam-nos alta e voltámos lá para dentro, o torso todo azul de tatuagens, uma solidão das de enfrentar a mil, cuspir sangue nos canteiros, ter o mapa e sentir o que dói, a cara partida, mal vendo de um olho, ter um animal absurdo à perna e a sombra em parte incerta, mas seja, porra, tudo por um sentido como esse rio que o outro viu levar cadáveres de mulher, a eternidade também tem baixas, animais de ventre aberto, rios desviados por carcaças, um cheiro impossível que as flores amarelas não disfarçam, o corpo adormecido ao frio era o meu, estava deitado para saber das águas o nome dela, o céu àquela hora já havia metido os pássaros nos bolsos, um vento ia e vinha indeciso sobre que morte contar, nessa altura eu já andaria desaparecido há meses, não me viu a um espelho decente, imaginava o meu ar doce de abandono, desses que ficam tão embebidos de luz que se lhes vê o coração, gesticulando sem sentido, fazendo de mim mesmo um eco, medindo a passos o jardim, para ter uma indicação técnica qualquer a que me agarrar, dessas hipóteses doidas dos que não têm onde ir, o meio-dia para mim então era já de noite, ainda me era difícil dormir neste mundo, mas as ausências já ninguém notava, algumas emendas, electrocussões, andava fino, era um ser apaziguado, a loucura tinha-me achado bonito.

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