terça-feira, março 21, 2017


Um momento e logo a perna cruzada dói sobre a outra, nem a quietude seguras, o barro, e a paisagem arrasta-se. Em cada sombra uma breve tempestade de areia, os cheiros chegam com atraso, alguns trocados, o próprio som do pássaro, se o isolas, torna-se extenuante. De ouvi-lo insistir, como se discutisse sozinho, sentes-te suar. Há algo de maquinal na criação, como se Deus tivesse deixado a chave na ignição e desaparecido a pé. Se à distância segues alguém, nasce um cuidado teu, quase uma proximidade. De cada figura salvam-se os gestos interpretando uma música que não há. Mas se trocas algumas palavras, logo esse tipo vomita um sujeito, fica claro que está alguém a mais ali. Raramente há um ombro, ou a mão que o toque, para voltar o rosto e ver-se além disto. Tão amontoados aqui, monocórdicos tons cruzados, uma variedade feita apenas de truques, subtilezas no volume, tempos diferentes. Quando este está de saída, farto de tudo, aquele só entrou, vem doido por cumprimentar o outro, mas recebe um encontrão. Navegamos nesse eco que traz os nomes lidos ao contrário. Pela minha parte, não ultrapassei ainda os olhos perdidos de Kerouac pouco acima do balcão, a dias de se afundar na cabana em Big Sur, fingir que o mar se interessa, que barafusta por alguma razão. Agora é triste notar como lhe faltam as palavras, se afogam incapazes de avisar o jovem imbecil que tanto o admira de que não vai encontrar nada, não era por ali, não era por estrada nenhuma. Talvez ainda se descubra alguma vista que por si só destrua o olhar, lhe arranque a película, o coma às colheres. Cá dentro, a selva trabalha as feras, sons que levantam as tábuas do soalho, bebericam pelos fundos, o pó ergue-se, dança na sala de arrumos, mas por agora só a mudança das estações. Para se subir e ver além de si, um tipo pisa o pulso, renega o ritmo que tem em si e em volta, rejeita o próprio coração, produz velocidade para queimar-lhe os fusíveis um por um. Atrás do rosto, um outro nos chama, de outro mundo, essa voz faz-nos estremecer. Dá-me o tom doente de ter passado um tempo sério atento aos detalhes, esgotando-os. Separei o excesso e vi a falha cantar. Acelerando-o por escrito, a razão esquemática daquilo a que chamas natureza põe-se a descoberto. Tomei um segundo, bebi um copo para além do meu fôlego, percebi que a frase sabe ser mais fria, tirar o céu de um corpo deitado, o firmamento desenredado desse hálito chocante. Ter-me-ei afogado num só copo como outros fazem ao longo de anos, firmando na terra devoções menores, a embriaguez contando noites, garrafas espalhadas pela casa, escondidas atrás da pia, como suicídios infantis. A aventura esquece-se como um bilhete num bolso. Se voltas a procurá-lo, era afinal outro o casaco, talvez também tu. Descruzas a perna, detestas também isto: este banco, este parque. E o dia estava tão bonito, para que te foste sentar?

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