segunda-feira, março 06, 2017


Repetiam oh captain, my captain, e não era a exclamação o mais digno de lástima, mas aquele vinho sem paciência nenhuma, uma coisa sem céu nem terra que se juntava ao sangue e formava nele cristais de gelo, um travo a bafio, o capitão encerrado na própria garrafa, afogado num oceano de semelhanças, tudo perdido numa onda tão difícil de beber, ouvia-se uma canção de cegos remando no escuro, às voltas, eu vi um barco virado onde tinham saído os últimos em busca de ajuda, as escamas do sonho foram dando à costa, e as crianças faziam colares, os velhos reuniam em concelho e indagavam-se que espécie de monstro poderia tê-las vestido, estávamos para lá dos limites da história e havia gaivotas a pairar em cima de nós, a pele cheirava a peixe, não se sabia que estação era, mas o verão acabara, talvez para sempre, os poemas aborreciam, a prosa parecia mais piedosa, a ninguém já preocupava o êxito, mas tentavam lembrar-se de orações como se disso dependesse a sua sanidade, mesmo aqueles que antes tinham apontado noutras direcções, as ruas voltavam a abanar a cabeça, nunca mais se sentiu o vento vir nem erguer-se em parte alguma, pediam-se direcções em desespero e morria o pássaro de corda da cabeça de cada um, a noção de estrangeiro tornou-se uma lenda, sem saída, alguns esqueciam como virar as chaves, perdiam gestos, demasiadas portas não abriam, tantos ficaram fechados por dentro, e por qualquer razão gritar parecia uma ofensa, o escuro burilava ritmos distantes, como emboscadas, as coisas falavam entre si, por ironia agora tinha crescido entre eles o medo de passar em frente a espelhos, ser-se desfeito pelo próprio reflexo, ninguém fazia a menor ideia do susto que provocava nos outros, não parecia o princípio nem o fim de nada, mas uma continuação inútil e desinspirada, ver finalmente Deus, mas de costas, e a afastar-se.

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