segunda-feira, março 13, 2017


Ódio e montagem, entrego cada impressão à desmesura como se recriasse o espaço depois de uma tremenda batalha, e o fizesse a partir de unhas e cabelos, com água e lume subo a temperatura, atiro vida às paredes, um atlas poderoso de tão detalhado, as soluções químicas da loucura, cada data, a história do mundo em dores descritas, tirá-lo inteiro da voz enquanto o sangue troca uma época por outra, a fome das coisas lá fora risca com o vento e os galhos os tantos quartos que habitaste como se o ar ali fosse sufocar os outros, de longe encomendavas febres espectaculares, o mosquito egípcio deixou-te uma marca belíssima, quis ir longe o suficiente, entreter a doença muito para lá da cura, na mão, o poema começado fala baixo, assusta os cavalos como certas luas, ficou à vista esse estranho ângulo nos sentidos, a realidade ao lado, essa que é a grande fraqueza deles, servia-nos meramente de comparação, o próprio mundo é fruto mais do artifício que da naturalidade, tantas as cenas que entregues à memória de mendigos fazem reis, como ela as despedaça, tornam-se perturbadas, sobrenaturais, o mais distante dos nossos impulsos nutre intimidades com o escuro, deslocando o sentido entre ecos, a própria razão, e eu sempre acrescentei à conta o peso de um pássaro, gorjeta lixada, nada de pacífico aqui, uma árvore imensa tombada no meio da cabeça, a noite começa a respirar, mais curta que um verso, isto que nos levou até às últimas regiões, sempre em expedição, por receio fazíamos barulho como se fôssemos cada vez mais, completando a memória a partir de coisas desenterradas, às vezes as próprias mãos como loiça chinesa, mas nenhuma forma tão firme e clara, tão imperturbável como a de um morto, mamífero, insecto ou flor, como se a própria sombra o devorasse, a luz descendo alguns degraus, quieta, é quase a morte o nosso tempo, anos que não imprimem nada, meia canção batendo-se contra um ouvido de pedra, dizem-me que é tarde para sentimentos fortes, que tudo se dissolve, e, como se o próprio mundo estivesse a desaparecer, não resiste senão a mera névoa de um homem atravessando friamente os outros, um tempo em que se coloca a mão sobre a do inimigo, para afundar a lâmina na própria carne.

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