segunda-feira, março 27, 2017


Move essa merda um centímetro que seja, só o aprendi, como eles diziam, depois de ter dado uma década, foi o Haroldo quem falou: o vocábulo é a minha fábula, não se tratava de falso prestígio mas de ter o nó atado antes de si, bem lá atrás, na síntese das eras, descer por essa linha tensa de assombrações, o mar num pingo, a cada gota um afogamento, passar por cima de quantas memórias não guardam mais que a canção das ervas, e eu, que não guardo sentimentos senão como antiguidades de que não consigo desfazer-me, por muito tempo li as cartas longas e aborrecidas da minha época, e o mais que por mim fizeram foi manter-me à distância, quantos quartos vazios, perguntava-me, gastarão os seus espelhos a lutar com uma imensidade de reflexos que não passa de espuma, não se inventou em qualquer deles um sol, nada senão o barulho que é próprio dos vivos, nenhum morto com eles, cada semente que achei fui metê-la na boca dos mortos, sobre a minha própria morte estava esclarecido, tinha-a visto, não me encantou como a outros, impressionava-me mais escrever uma linha, dar o braço a essa cicatriz contínua, e ficar diante dela como se a sua extensão fosse tudo, o suficiente para andar fugido anos e ser caçado pela barba, esconder-me escutando num puro terror que vira deslumbre as pisadas de água, um rio sufocado como boca em busca de um ouvido sobre a terra, dormir sobre esta linha cem noites, rasgar-se à sua luz, ver o mundo daqui, a podridão inteira da terra, e o lixo espalhado da história, viver da espécie deitada fora, que desistiu, um reflexo arrancado do rosto à faca, as palavras alimentam-se das próprias raízes e a voz, se a isso chegam, abala o mundo fazendo pontaria ao centro, a carne que nasce abraçada a esse caroço de demência, e ter certo que o contexto não é suficiente, no meu silêncio, depois de ter dito tudo e me ter revoltado contra o que fez de mim um deles, cresceu enfim uma rosa escura sem saída, ouvi o que não queria, a repetição que, sem se autorizar o menor desvio, nos infunde a fantasia de todas as grandes composições, concertos, sonatas, para um tipo desfazer-se como uma aranha dissolvida na própria teia, esse equilíbrio precário de quem desaparece debaixo de si, sai pela porta que mais ninguém vê, imagino a minha ausência a recuperar um corpo semelhante sem que mais nenhum dia se levante, nem uma noite, a hora não passa, é intransponível, o mesmo gelo nos astros, nas articulações, iodo, um contorno de ferrugem, o que a sujidade nos dita, e a dor, aquele murmúrio que foi inspirado pela cárie, somos arremessados a léguas de distância pela entoação de uma frase, desponta de a ouvirmos interminavelmente no oco de nós, um eco afiando o osso, planta-se a perspectiva da cólera até que se destrinça no vento umas vozes das outras, estamos abaixo do nível em que noutra hora esteve o mar, os meus cabelos enchem-se de peixes de penumbra, estudei-o como se fora um livro, o mar, até à ferrugem, depois dele, não queria estender-me, ao contrário preferi que me vissem coxear nas distâncias que me faltavam, que ficassem claras as marcas, não cobri o rasto, não larguei a pele no caminho, mas deixei ao inimigo a roupa em que mais suei de terror para que os cães dele soubessem onde procurar, não quis ficar a dever a vida a nenhum buraco ou desatenção, este o meu ultimato, antes tê-la por esse fio, esgarçado, sentir que não faz diferença que o cortem, porque outro mais cedo ou mais tarde o retomará.

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