sábado, fevereiro 25, 2017


Uma noite seguida sem voltar a cabeça, o corpo não é muito, e tinha perdido a simetria, o contorno grego, restava-me passar os gestos pelo fogo, copiar incansavelmente os ritmos exteriores, demasiados dias no escuro e o som é o único corpo que tens, esta sensibilidade do cansaço, meio sono, lume brando, a distância calmante a que passam alguns astros dos condenados, lembra-me as longas ausências atrás do telescópio, e, como antes, ouve-se a terra girar, esse ruído sem luz, e a sombra ainda cresce, cheira a mais alguém, estivemos presos, somos vizinhos, diz-me o vento, e deixa-me ver qualquer coisa lá fora, pálpebras de mel descendo sobre os olhos perdidos, sou vizinho, uso as escadas, a profundidade, esta fome própria: "o seu pão é cada vez mais depurado, feito de asa de libélula, de papel de arroz, de flor de sumaúma", eu lia isto ao meu estômago para adormecê-lo, ficava de rosto nas grades, a lua lá sangrando do nariz, tantas histórias, se eu quisesse acontecia o quê?, não teria a quem dizer o que está vivo, depois de ele o ter dito todos imitavam a sua loucura como quem imita tempestades, era muito triste ficar só, juntar as palavras mais difíceis, a luz não desce tantos degraus, apagaram-ta, foi preciso levar tudo, paredes tatuadas, perfis de figuras que o sol fundiu, deitar-se, pousar uma pequena pedra sobre o peito e senti-la escavar, afundar-nos, este rio seco, esta boca cheia de desastres no leito, gretas, espinhos, esquírolas, sentir uma corda passar pela garganta, puxando ou descendo carga, um corpo amarrado pelo peito, na boca tinha então pedras como ossos de um animal pré-histórico, a gota de veneno para um bom sono, o sonho rasga a película, fala como as pessoas com febre e, agora, que pode interessar-me a verdade?, antes uma mentira que saiba o que faz, uma passagem através do erro, apagam-te a luz e o mundo, escreve as tuas poucas palavras, o escuro acredita, é bem fácil de convencer.

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