sábado, fevereiro 18, 2017


Retirados ao sonho, os olhos doem-me terrivelmente. As pálpebras descosidas nas manhãs insípidas. A casa já desperta, atenta à prece das cortinas. Voz fraca de uma luz mortiça que entra reordenando o seu cortejo de tímidas figuras de dança entregues à melodia pressentida na intimidade de certos objectos. Ela ergueu-se, fez o café, pôs ordem às linhas do corpo e desapareceu. Os bilhetes acabaram, os simples recados cheios da doce inabilidade e dos infindáveis rodeios que o desejo e o amor usam para se fazerem entender, acabaram. Nestas primeiras horas sou uma mera imagem desfocada, vagueando nua, cigarro ao peito entregue a explicações. O absurdo simples. Sono e confusão, esta frase gaga que vai repetindo o mundo, baixinho, numa prosa como tinta derramada. Estas mãos escuras, tremem demais e coçam-se devorando a espera. Um pouco de céu que retenho sempre por baixo das unhas e um eco ganhando distância das coisas que li. Prodígios de luz encobrindo rastos, o esqueleto dos bichos formando pequenas jaulas de sombra, ninhadas de animais invisíveis, enxames de abelhas ansiosas, os lábios partidos dos canteiros, as flores iniciais e aquelas cicatrizando os muros. Uma lagartixa horas, fixada sobre o hieróglifo da sua sombra. Que equilíbrio fascinante. Difícil saber o que sustém o quê, mas nada é trivial. A árvore estende a todo este largo uma estranha dignidade. Confiante, só, bebendo no tempero da aurora o seu grito mudo. Dias que não deixam de ser breves, sua frágil exaltação de pequenos incidentes, quase despropositados. Uma brisa desata a memória dos frutos nos ramos onde engordam pássaros de cinza. Quedas musicais, um nervoso bailado. Cantam em louvor dos idosos, ali dobrados sobre o leme dessas naus de pedra, entranhando-se-lhes na roupa e na pele o cheiro marítimo, a distância. Falsas todas as partidas, todas as tardes, sedentárias odisseias entre parêntesis de náusea e desafecto, pensamentos tenebrosos dentro e fora de sombras. Tudo o que lhes resta é esse resignado afastamento do mundo. A infindável pose desta cidade que já não avança nem recua no tempo, assiste indiferente ao seu velório.

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