quarta-feira, fevereiro 15, 2017


Não comeces, por favor, diz, pregando-me esse reflexo sempre uns palmos abaixo da minha altura, mal pressente um vento a esgravatar a terra, a torcer os caules, arrepiar as sebes, põe-se na defensiva, eu ensaiava melhores modos, na minha cabeça ia bem, só havia uns graus a corrigir na trajectória, mas ela revira as mãos como se me fizesse um açaime, espumo, deito fora as maneiras, alguma frase pega como faísca em campo seco, o gosto da língua na boca é o de uma fera em cativeiro, a sombra sarnenta de tanto se coçar abre feridas, a carne em torno de uma vaga dor como de um osso, sou substituído por um gesto para o qual não tenho a menor utilidade, começo a vestir roupa, camadas como se lá fora fosse enfrentar um período glacial, detesto-a no outro quarto a deixar-se ouvir, encher-se de cães, a prescrever-lhes o meu cheiro, o esforço absurdo para me pôr do outro lado da porta faz de mim um foragido, o lance de escadas aponta tudo, a madeira anota no caderninho a hora de saída, o rangido das tábuas deita uma mão, rasga as roupas da alma, cá fora sabe-se o caminho cegamente, cada passo pressiona a rua, seguem-se uns aos outros numa elipse doentia, e ela lê-te os direitos entredentes, passagens bíblicas como se te ameaçasse, antes que a voz suba de volume, traga os personagens do costume, calculas a distância que poderás ganhar até cresceres feito uma imensa nuvem de gafanhotos, o receio de que não haja deserto suficiente para isto, ouves o sino da torre absurda martelar o ar, estiveste aqui mil vezes e ainda nada te é familiar, a loucura perde-se no próprio rasto, incapaz de apagá-lo, depressa, seu palhaço, eu digo-te, imagino que precises de duas horas antes que o cansaço tenha forças para sufocar a luz que enche e te atravessa em vagas, o apito desse comboio metido nos carris do sangue para te apanhar de frente, a cada volta cerro os punhos e junto a raiva para esmagar contra os ossos até ao último passageiro, do mundo inteiro quero deixar só lata, cinza e penas, apanhar alguns anjos se puder, e aguentar-me por um fio, buscar o mesmo banco de jardim e escrever a data 1848 numa folha após outra, como quem diz a todo este tempo que não precisava ter-se dado a tanto trabalho, e tenho a certeza que faço sentido noutra língua, esta só me deixa ficar sentado junto à linha, ser duro com quem passa, cuspir-lhes em cima, culpado e sem remorsos, só me interessam sentimentos que duram toda uma vida, e de todas as minhas voltas sobre este tempo só tenho a reconhecer-lhe a qualidade do ódio.

Sem comentários: