sexta-feira, fevereiro 17, 2017


Já ninguém foge e não tenho sequer quem me acorde, sendo dos que sofre mais de noite entre sonhos já fracos, que se arrastam de muletas puxando para si a realidade, magoados de tanto absurdo e de uma gente que só existe por lhes faltar a coragem. Tenho este quarto e uma garrafa de soro, lâmpada que pinga e espalha lentidão sem romper nem queimar. Levanto-me quantas vezes? Sinto vidro no sangue e cada gesto destrói o seu alcance. De barriga para o alto, no chão, as latas de cerveja e o rádio perdidos de riso. Livros e cadernos. Tinta entornada e uma juventude fedendo a suicídio e glória. Esta narrativa ofegante, um caos com pormenores líricos. A única música que ainda suporto. Os pardais agora tossem e a tardes sentam-se entre tudo o que se vê corrigido para caber num alexandrino. Uma delicadeza tão forçada. Caçando o azar, os velhos lançam dados no meio da praça, migalhas de pão e as unhas do diabo. Uma revoada de pombos estala em torno do meu pensamento, mas eu juro que não se passou nada digno de nota. Atrás da cabeça rola um sol esquivo, frio, e esta luz avessa põe-se a fazer as partilhas entre o que lá está e o que vive nas aguarelas da memória. Jardins choramingando, solidões tão renhidas. Contemplar o impossível enlouquece, olhar o escuro comove-nos. Não é que um homem se importe de chorar, mas um dia até isso lhe falta. Tudo o que o leva são assobios bem vagos, soluços desses que arrastam a noite para um fim qualquer, sem consequência nem moral.

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