sexta-feira, fevereiro 17, 2017


Contra as distâncias a que dou vigor, sou a conta perdida por toalhas de papel entre tantos passos frios no rumo desastrado de astros parasitas, tudo somado enquanto a chuva sossega o escuro e a terra inteira balança numa melodia de cinzas. Mais um pouco e serei o cão de cada rua, revirando o lixo derramado no vento, os olhos brilhando de febre. Falo sozinho como sozinhos falam os príncipes dementes escondidos em celas e torres. Despeço-me entre o ruído maravilhoso que nos desfaz o nome e a presença, até não restar em nós mais ninguém. Poderosas linhas pontuadas a néon lançam um clarão agudo que serve de farol ao bando de ébrios detectives esquadrinhando a noite atrás de pistas quanto às vítimas do romance. Descansam nos cafés tirando sentido de anotações de um vago lirismo. Os dedos finíssimos e sujos de tinta apertando vidros que sonham, uma luz absorta entre gestos lendo outros gestos, e o calão sorvido ou a rima ancestral que confunde o silêncio sobre o século em que estamos. O longo ritmo da sede e a flor rouca do sangue aberta no meio de um bailado imóvel: noite embalsamada de perfumes; olhares cuidadosos tacteando o mel desses sinais que nos transformam para sempre. Repara nesta miúda desinteressada de nós, no jeito como protege nas mãos a chama que lhe canta os traços mais doces do rosto. Uns restos azuis, o corpo repetido, habituado à voz cega das canções que a empurram para a carne indecisa de outros. Corpos inacabados que mudam de forma no escuro, e se beijam como anjos canibais. Assim, como frascos de perfume, entornamo-nos em todos os sentidos e somos arrastados para outra noite. O sangue apertado, esse vazio em que sopramos prazer e sombra, caídos lado a lado, sem passado algum. Apenas um sonho cru onde a luz respira em ritmos de vitral, lenta e sensível, tocando o ombro de um deus perdido. Vontade viva de doer, filmados uns pelos outros num eco redondo, na perfeita leitura de um manifesto que deixe claro como de todas as horas do mundo não engolimos uma só. Mas se o guizo da loucura se anima dentro de nós, não cala a voz das coisas reais. Com bastante tempo e solidão, estas deliram como nós, imitam-nos, e ficam depois para assombrar os demais.

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