sábado, janeiro 07, 2017


Um homem senta-se e é os ossos todos, um maciço chamando o raio que de um instante desça farto do universo e das alturas e se estatele, ali, como espirro cósmico, logo fervendo o sangue, as ideias ebulindo, as mãos a tremer com reflexos do céu, e do mesmo gesto destemperado faça um nó do corpo com a terra, raiz súbita, mas, voltando a essa cadeira, sentado, com gesto de quem pega e larga destroços num fim de mundo, eis-te capitão de nave rasgada, olhando o painel dos instrumentos, tudo avariado suspirando fundo engrena a contemplação, e sentir tudo é parecido com nada, como ter o corpo na água, que agora parece só um detalhe, ser um troço de uma frequência, flutuando na sintonia geral, ondulante, das coisas, assim às vezes levantar a cabeça de um livro e sentir a estática, entre ter perdido e lentamente reganhar o seu peso, um centro qualquer de gravidade, mas o som do raio chegou, com este atraso, e com ele traz uma chuva de borrifo, que enche gotas e estas, quando ganham tamanho, descem a fazer cócegas na casa, e eu entretanto levantei-me, sou daqueles com o dedo nos lábios da persiana, ia jurar que estamos todos cá dentro e lá fora é o espaço, vai chegando aqui também em ondas a luz de estrelas decrépitas, antes havia um parque logo ali, a areia de roda de um escorrega, nem por sarcasmo diria que isso alude à infância, descanse em paz a pobrezinha, mas vazio era como um troco para a vista que se tinha do café mais em frente, o que direi é que soltava aquela distância em que revemos as coisas que já esquecemos, como ter a carcaça de um bicho que se parecia muito com deus, e agora ali de lado na areia, sendo comido por uns crustáceos de merda, as gaivotas que não passam de abutres à beira-mar, o esquecimento é doce como isto, mover-se num quarto, sentir o próprio cheiro, estar sob o efeito de um obturador lento, perder-se no próprio fantasma, ou como disse Paulo Henriques Britto, no conto que me inspirou, gozar a sensação de estar na posse da sua materialidade perdida. Uma coisa leva à outra, e qualquer tralha, objecto ou livro que entre num quarto, se for hábito fechar-se lá dentro, isso tudo virá um dia à superfície como ruína embelezada de uma civilização extinta, um livro de contos terá vozes soltas, cada uma mais doida, e essas vozes ecos a aterrorizar arqueologistas e saqueadores, se o tempo não vir cortado o fio, pode ser promovido a História, ter todo um passado cintilando de anacronismos, uns imbecis tentando colocar o nome também nos livros, hão-de falar na cultura fascinante daqueles tempos, e nós para aqui, largados no meio de tudo, lendo um ao outro estórias, de vigília à janela das eras.

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