domingo, janeiro 29, 2017


Tenho um ombro negro de estar de costas, debruçado sobre a mesa, e servir de estação, de se pendurarem nele os sôfregos, os virtuosos na condição que lhes oferece o erro, esse que zela por eles, qual anjo, há os que se deixam embalar pelo ritmo como se fora uma pulsão sexual, a mão na perna das coisas, um suspiro rente, ter claro como um tom de voz descaracteriza um homem, basta para despir uma mulher, de se ouvirem a si mesmos é que os loucos perdem a pérola, escancarados se atiram à linha, param comboios, súbito tudo faz um sentido desesperado, sentir que se traz em si a virtude violenta de um extremo de si, na parede a ouvir-se, as mãos no rosto enchem-se de suor e tinta, toca os cornos, tem partes frias e outras escaldantes, tenta arrancar a cabeça de dragão, também eu na minha voz, ao movê-la, havia dado com certos desequilíbrios, actos estranhos, longínquos, ou dedadas, uma pressão como na pele de um fruto, um ponto inclinando para si a paisagem em redor, a estação viu tudo, bebeu de mais, há uma luz pouco natural a fazer as últimas rondas, um vento que vem em ombros, minha história compulsiva, nenhuma ordem que não admita uma inversão, tudo se sente estalar, o texto deve poder ferir-se como uma mão num caco de vidro, a cerveja contornando as letras, a garrafa quebrada no canto da mesa, e o baque rasga o espaço, deixa os contornos sonoros de tudo por um fio, dá a sensação de um pulso a rodar surdamente desaparafusando o mundo, só nos resta das coisas o nome, daí esta eterna revisão, testando o que se move num apagar de luz, é preciso passar também o interruptor, fazer as ligações deste lado, tenho centenas de páginas riscadas de que sobrou uma frase, cuidados terríveis, ter ideias negras e contá-las, ensinou-me o ódio, foi das coisas boas, a diferença toda que me fez, sei dosear a força, a minha regra: se combato um monstro, não o mato, vivo dele, o resto são aparas, asas retiradas de coisas a meio voo, palavras eriçadas de mal-estar interior, não preciso de grandes travessias, basta um passo e tudo se ilumina, tiro deste mundo o que ainda sabe apreciar um reflexo de si, talvez encontre outro espelho onde possa dissolver-me uma vez mais na mortalidade, importante é que ninguém nos fareje, cobrir os rastos, falar para dentro de uma caixa, ferver água para dois, três, raspar com a colher uma réstia de sentimento e deixá-lo lamber entre as mãos o gosto a este tempo.

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