segunda-feira, janeiro 02, 2017


Sobram na boca como pó dos caminhos essas frases que recomeçam tudo, alguém que fala entretidamente uns passos atrás, leu e pensa que fazem diferença os hábitos escolhidos, como este que, antes de escrever, toma fôlego, cospe nas mãos, aquele que antes de saber de que lado a inspiração há-de soprar, corre a bater à máquina o Gatsby como se educasse as mãos, pela sombra e ritmo do outro, corre ao lado do comboio e apanha-o entre estações, assim os que bebem os poços, atam num canto do mundo uma ponta e vão-se a desfiar, abrir o sangue, torná-lo infinito, o doce, o amargo, os venenos, uma fé nas coisas que pensam, ou apertar na têmpora o gatilho, que dizes?, estamos nas palavras quietos, morbidamente mudos, um quarto hostil como este, ar seco, para respirá-lo há que engolir, como se houvessem abatido demasiadas árvores nele, a lua com os cabelos sobre a mesa, um grito amordaçado, pouso a caneta para abrir a janela, talvez desçam uns graus na temperatura desse lado, depende de tantas coisas, por vezes não tenho mais nada, saio e busco uma igreja dessas pintadas no cimo de um monte, o vento mais coçado em torno, cheio de vozes na cabeça, o único assunto na minha é dar meia volta, penetrar o passado, como se ao olhar me fosse dada a graça de rebobinar a fita, a chuva subindo, as palavras puxando a trela aos ecos antes de regressarem à boca, aqueles que se foram a desfazerem as malas sobre a cama, e a morte a devolver as flores, a parra a subir pelos tornozelos dessas colunas, na parede bagos de uva pintados, no chão os caroços, o prato de sopa com misturas de tinta, pincéis, unhas, meu génio branco, retorcendo a barba, tira das nuvens nómadas uma direcção ou contorno, certo detalhe que lhe abre outro sentido, quer fundir-se à brisa, de cada paisagem manter-lhe os lábios abertos, tira a voz debaixo de cada pedra, de um copo no fundo do mar salva ainda o gosto de uns lábios, impressões que fogem no tempo, os olhos abertos, negros, disse-me certa vez que em cada olhar fixo há um anjo, esgarça, retira-o a ferros, abocanhando os espaços até ao mais exasperado dos sentidos, até que a língua se desfaça e refaça segundo o instinto dos sons, até que acordem de noite os girassóis e façam cair a lua, incendiar os campos, que as páginas de um bosque ardam, e algo nos siga entre a alta vegetação de uma outra vida, como uma névoa que passa e nos sente os ossos, língua negra em que se cala tudo o resto, este copo na mão e logo te lembras como outro perguntava “Quantos mistérios, quantos matizes, quantos silêncios contém cada gole?”, de tantas lembranças, sons escurecidos que se estendem como sombras, lhes adivinham os gestos, não sabes dizer quantos somos ao todo, apenas que ninguém morre, não disto, nenhum que tenha vindo depois deixou outro ficar para trás.

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