domingo, janeiro 08, 2017


Mal dá para separá-las, as palavras se despertam uma distância fazem do seu voo carne, salgam um caminho, como gente do circo, a dos itinerantes, dão a volta, apressam-se a erguer a tenda enorme, espalham o lixo das suas fantasias cansadas, visões agrestes, mesmo antes de ouvir a própria voz, os sons envolvem-se na boca, um peso estriba a língua, aos dentes fica-lhes espaço, as gengivas recuam, por um fio vem aquele gosto de ferro que há no sangue, vejo-me a cuspir alguns dentes na mão sem que isso aconteça já, mas a qualquer momento, é um alerta, a minha patética calamidade, começar a desfazer-me a partir de uma frase, nem chegar a produzir propriamente as sílabas, como se na saliva pudesse ficar o esqueleto do idioma, só que fosse o corpo a ser atacado como espelho que se embacia ilustrando um rumor, e se estilhaça depois nesse desenho, o de uns abanos, tremores inúteis, porque há uma tal ordem de violência que se insinua menos no que possa pensar-se do que no ar frio que começa a respirar por si mesmo, como pelas palavras um instinto se calça, sobe a uma cadência meio frenética, há passos a toda a volta, uma invisível insurreição, no porão as lâmpadas irisam-se e uns quantos vultos sentam-se de volta da mesa a limpar as armas, e porque te conheço, nos conhecemos, não é mistério que vamos até ao fim, se o ódio insiste tanto, vais segui-lo, alguma coisa saberá, nem que seja só o desenhar uma recta vingativa para abater um cão debaixo da lua, ainda que se perca o caminho de regresso, mesmo que logo após o tiro as mãos percam o significado, fiquem destroçadas, e acabe a apanhá-las do chão como os cacos de um antigo vaso quebrado, na hipótese de pelas flores saber reconstitui-las, e a uma hora dessas penso sempre no triste que é estar morto no fundo de um bosque, e não haver sequer uma cruz para servir de ombro a algum pássaro.

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