quinta-feira, janeiro 26, 2017


Feito inútil, santo entre signos e ossos, no século XII como ainda há pouco, separando os passos entre quantos caminhos?, procura-me igrejas tão perdidas e doces quanto vazias, sabes de que são feitos esses que vês sair, homens de nenhuma substância moral, nem fé, corpos fáceis de fugir, que passam cuidadosamente ao largo de tudo, donos só da fragilidade como pisam noutro padrão, de olhos quase fechados num silêncio que nunca pede explicações, quem sabe que pedra os leva ao fundo, os bolsos cheios ao entrarem na água, à superfície os cabelos de mulheres afogadas que a água toca com dedos estranhos, mas isso foi antes que nos dissessem chega, não mais, ao contrário do que se tornou hábito agora, com toda esta prudência, o impossível nunca nos levantou a voz, essas lembranças são anteriores à guerra, a todas as condecorações, à destruição da imagem com o seu rasgo obscuro, obsidiante, cheirando a outro mundo, de lá para cá os mapas são para que os tipos não se desviem nem o mundo vá mais longe, perca as estribeiras e os lance fora, os desanque de tal modo que não haja mais nenhum passo capaz do menor acordo com o anterior, têm um ar de bicicletas despenhadas no fundo de um desfiladeiro, as rodas dando as últimas voltas atordoadas, só têm rabos de frases, palavras que nada restituem, nem virtude nem sentido, mas que os fazem sentir-se firmes em terra, na paz de quem nela se deita, se recobre de detalhes, anota a própria porcaria e o lixo que faz, como se entregasse a obra a ratos, todos quantos lhes tomem os defeitos por ousadia, assim chegou-nos antes de tempo um cheiro a podre desse futuro que conjuravam, mas saímos?, sim, saímos, estendemos outras mãos que não essas, condenadas à certeza, víamos o fruto de outras palavras, a noite há muito deixara de ser bela, esse cheiro que deixou nas mãos tirava o gosto a tudo, alguém partiu a lâmpada da morte para que dali em diante se voltasse a ver no escuro, nem foi preciso queimar bibliotecas, tínhamos lido versos suficientes desses que viram a morte da Literatura e continuaram de pé, olhar é desaparecer, ainda os oiço, cotovelos juntos como uma primavera passando por cima de nós quando de facto estivermos enterrados, há poucas coisas certas, até porque mesmo o nome as desfigura, mas então perdem-se as letras, tudo se trabalha na carne e uma frase é um passo que se ouve em outra parte.

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