sábado, janeiro 21, 2017


Bater a uma superfície, nós dados há muito, um pedaço de corda na boca do vento, nós de uma mão que tenha ficado à superfície da terra, e o resto do corpo debaixo, batem até que se faça um ritmo intruso, tudo ainda escuro, nem se sabe quem ouve, de quem é a irritação ao ser desperto, quantos da treva tomam um trago súbito de consciência e dor em todas as partes esquecidas, e o ritmo lá, numa insistência que fosse como o pingar de sangue numa água há muito parada, algo vivo, vibrando e o tempo ferocíssimo e meio descrente de que algo lhe escapou, vem com as ferramentas todas, espalha e instala um antes e depois, fica ali raspando um no outro como pedra em pedra, faísca e pega fogo luz, e o escuro, que à mínima contrariedade se pira, esconde-se no menor orifício, até debaixo de um cabelo, e então umas poucas palavras, só a pele inútil delas, sem sequência, nem relação com nada, deixá-las ali, no branco, dias indagando, o que foi? - umas para as outras, mirando-se, até o vazio estalar no estômago delas, ensinar-lhes a fome, e então se amatilhem por instinto, cercando uma maior, deixando-a alterada, feito bisonte no meio de lobos, e de se aproximarem, o ar, que até ali não havia, agora falta-lhe, e as restantes descobrem-se na inquietação dele, no reflexo do medo que ali nasce sentem os dentes desenhar-lhes a boca, a mordedura, ferram-lhos tomando o gosto espantoso da carne, disso, dessa vulnerabilidade toda Deus recebe a vibração e manda um anjo ao local, tomar nota da ocorrência, e o Diabo, que tem a linha sob escuta, manda dois dos seus, sobre essa planura entretanto já há céu, e com ele uma vertigem tal, põe um peso maior nas palavras, elas sentem-se como mãos, passando uma na outra, uma força capaz de estrangular, e eu vim dar perdido a isto, a pequena caixa onde me espreito, sacudo-a, oiço as minhas ossadas, chocalho a morte mesma, lá dentro as palavras ainda, como pulgas, sacanas já versadas nas entoações cardíacas, escutam, tomam-nos o pulso à distância, se eu lhes desse o teu nome, imagina, pensa no que fizeram há pouco com o bisonte.

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