quinta-feira, janeiro 19, 2017


A um canto, os lábios cerrados feito um punho, lápis de cera, raios de sol, as putinhas das flores e o resto, faço bem barata a ficção, mas não confesso porra nenhuma, nem a ferros, choques, babando de bata nas instituições de um branco que fere, alvura de osso limpo pelas formigas, a lua raspando nas grades, sempre o mesmo canal a zurzir-nos, e jogos de tabuleiro com mais dentes já que peões, nestas linhas nem uma migalha por descuido, prefiro engolir até à última pílula, fritar no óleo bem sujo da eternidade, a corrente a passar de uma ponta à outra pé ante pé, não abro a boca para isso, dizer coisas minhas, nada, um homem se tem algo de seu é a vergonha, larga isso e não há mais volta, nem corda no escuro para se orientar entre as divisões que faz, nem uivo nenhum que lhe erice os pêlos, agora essa de ter de vivê-la e ainda vir contar, passar a limpo esta asneirada, isso seria pior que dar-lhes todos os meus nomes, ainda os lugares e as horas em que vão passar, bufo de si!, que tristeza essa gente toda que à imaginação dá morte com veneno para ratos, quotidiano só ouvi falar, ver com estes olhos não posso dizer que tenha, alheado, tive sempre outros compromissos, dos que enchem a primeira página mas de outros jornais, a gente afasta o azulejo e deixa lá o último número à guarda da humidade, de bichos-deuses, o escuro roendo, tratando do estilo, vão as instruções sobre o homem, o que é, como funciona a doença de ligar os sentidos todos ao mesmo tempo, um avançando sobre o limite do outro, esta respiração diabólica, esse jeito tímido de ficar no seu canto à espera do seu momento feito bomba, passando com a colher de chá a pólvora do tic para o tac, até os relógios no edifício ficarem lerdos, o tempo numa imperceptível câmara lenta, e ir deitar-se à espera na banheira, melhor passar soluções químicas nos versos que essas desesperadas tentativas de intimidar a inspiração, quem escreve curto concentra, põe-se um frio danado nas redondezas, soa entredentes a receita de provocar tremores na cabeça, na pele das coisas, nos astros, nas fezes, mas se fazem os testes estamos limpos, descontando a borboleta que surgiu na ressonância magnética, o paciente lava-se, come, dorme, ou pelo menos deita-se, não recebe visitas, recebe as cartas mais estapafúrdias, algumas perfeitamente ilegíveis, em idiomas desconhecidos, não vemos razão para proibir, tudo considerado parece-nos bastante inofensivo.

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