quarta-feira, dezembro 14, 2016


Senta-se no chão, de fato, tão alinhado essa manhã, e agora?, os braços entre as pernas, a casa toda partida em volta, móveis de patas varadas, o aquário a rastejar e os peixinhos de lado na carpete a ver os dois segundos andar para trás, a mexerem a boca, as últimas palavras a desencher o ar. Deu-lhe bem, puxou o telefone para arrancar a linha e a voz, veio um bocado de estuque, o prédio parece que inclinou um pouco, ia ter os filhos no fim-de-semana, talvez ainda peça chinês, coma os crepes da caixa, luz apagada a ver os vizinhos sentados à mesa, a televisão, algum filme com a Julia Roberts, passar a noite como se uns meses fora, até que cortem água e luz, acampado no apartamento, tira o plástico, cruza os naipes, dobra as rainhas, atira os outros, mete ao bolso os jokers, e bebe vinho verde na varanda, mexe no cabelo das plantas, chuta uma lá para baixo a ver o que faz. Que tal isto para realidade?, para franzir o sobrolho desse leitor otário, meu semelhante, que tocou há pouco com a ponta do dedo no lábio inferior antes de deslizar com o cursor. O projecto seria calar esta gente, toda engalfinhada para escrever a mesma linha, não já os grandes caçadores de imagens com as suas flechas desejosas da outra margem, nem bibliotecas estendidas como sombras a cavalo, cargas umas sobre as outras a conquistar territórios, os caminhos todos do mundo a virem comer-nos à mão, nem um só gesto rápido, inesperado, imagens saídas para o mundo como feras saídas da jaula, os leopardos a irromper pelo templo e esvaziar os vasos dos sacrifícios, nada disso, apenas as moscas da fruta a perderem-se na memória, o peso de um fruto velho despedindo-se ao longo de dias, beijo inteiro, lento, o rasto da carne que desce toda à sua sombra, e a perfuma, morre da mais natural doçura. Um último caminho desses que se conhecem demasiado bem, pelo cheiro, como se nos pedissem para fechar os olhos, e ir serenamente. Ser convertido às urgências de uma velha governanta, cultivos domésticos, decorar a história do ponto de vista do botânico. Romances mortos de cabeceira, e quantas horas num copo de água? Os goles compassados... Que se calem. No material ascético de uma língua pobre como a vossa eu andaria de bicicleta, requisitaria uma atmosfera antiga, havia de pintar borboletas, seria o escritor que queimou tudo, mas de noite se ouvia recitando a um candeeiro a lista interminável da escuridão, a montar armadilhas nos cantos e ângulos para onde os espelhos nunca olharam, havia de ser aquele inútil que, caído em si mesmo, deixa que a eternidade o transforme. A fazer-se cada vez mais longe, usando a língua dos outros para sondar o próprio terror, cobrindo impossíveis distâncias, macerando algumas expressões, arrancando aos ecos todos os dentes, às palavras havia de lhes misturar o sangue de tal modo a que dessem outras, aleijadas, loucas, para que a perdesse, a língua, delirante debaixo de sóis expulsos do mundo que vemos, ao ponto de, na volta, mesmo se preferisse não confessar nada, ainda que lançassem a corda sobre o ramo mais firme e me fizessem o nó, me obrigassem a dizer o meu nome ao contrário, a obra estaria feita, o ar em que as palavras se respiram mudado, e nelas persistiria o tumulto, como se a língua tivesse sonhos maus, lhes tremesse as mãos e desse o dobro, o triplo do trabalho, pegar na caneta como se puxassem uma âncora brutal, que desencorajasse a escrita dessas simplicidades alarves, depor no túmulo deste tempo a flor de um podre contentamento.

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