quarta-feira, dezembro 07, 2016


Os signos que não entendemos interpretam-nos melhor. Línguas impenetráveis que nos abrem, arrancam uma página, fixam as palavras perturbantes no meio de uma frase perdida de todo o sentido, e tiram o pulso a imagens de uma doçura que dá cabo dos dentes do leitor. Por isso se vê um amante verdadeiros dos versos pelo sorriso desfeito, os poucos dentes desenterrados, de tanto meter a palhinha ao buraco, e ter os ossos tremidos pela vibração que lhes chega desde o centro da terra. Com o tremor, o pó caído, as sílabas que primeiro se apagam e vão, mudas, contar outra história: esta pequena música algo inconsciente: a dos corredores, quartos de arrumos. Na oficina, os quadros encostados e, a luz que trocam entre si, dá mais uns passos em torno da mesa, logo é tornada pouco natural. Uma agitação nos ramos da árvore pulsando no centro de uma paisagem entrevista, o pressentimento que devassa a penumbra e os materiais da dedicação: pincéis, as tintas, tons crepusculares na paleta, um rouxinol num frasco, as abelhas dissolvidas no tinteiro de mel para dar espessura, sangue onde esplende um sol. E um pintor pousa à margem do seu assombro. Alguém se preocupa, noutra sala, com a montagem final, e algures a voz do realizador narra intenções que nos são exteriores. Ninguém sabe exactamente de onde somos. Ser português não quer dizer muito cá fora. Que rosto imitar, que raça deveríamos evocar? Falamos com os tradutores, deixamo-nos conduzir pelo braço como cegos. O medo de que fora do idioma nos falte o chão. Voltar ao quarto e, sem tirar os óculos escuros, ler os russos na cama, como quem fuma, puxa fogo ao rosto, mexe com o dedo uma canção, lê no tapete o rasto das constelações vindo da varanda. O corpo carbonizado que perdeu a nacionalidade tem ao menos a sua nuvem e o roupão esburacado, encardido, a noite com legendas nas paredes, os faróis, filmes cheios de grão, reflexos que se perseguem na pele, arrastados pela aragem, levados a dançar nas praças de cidades que se deixam gravar em cassetes, estas a que o vento já soprou, nos claustros, as últimas velas. Outras coisas: o gosto ferido que as ruínas romanas oferecem aqui como lá, a tua altura, dos anos em que crescias, detalhada nos muros, e mordes a língua dos teus ecos. Pula, Croácia: ruas frias e hesitantes dessas que tornam excessiva a nossa estima por algum casaco que raramente sai. Nos cafés eles falam baixo como se não interessasse muito, e então pode escrever-se por cima, emendar a frase que trazíamos de Lisboa, este diário a que repugnam os dias. Só regista vagamente as estações, tão incertas as pobrezinhas neste tempo. Joyce viveu um ano aqui. Quem imagina hoje o que era um ano à distância destas décadas. Ele, parece, não gostou muito, e assim mesmo deram-lhe um lugar cativo num dos cafés. O prestígio literário na província sempre foi mais certo. Uns dias fora e a sensação de ser seguido por antigas moradas, a velha noite portátil, lembranças aguardando um percalço no quotidiano. Voltamos a juntar um pouco da antiga e memorável solidão, o suficiente para vislumbrar a cauda de uma baleia à superfície de outra pele, além, tatuada no ombro. Sombras gozosamente lentas, corpos que se despem outra vez quando deixas cair os russos. A cabeça rachada e o desejo encontrando o seu caminho ao fim de alguns anos. O modo como debaixo dos lençóis todas as formas se sonham adolescentes, e o corpo frio do passado vem espalhar as cinzas ao teu lado, na cama, reacende-se. A cena inteira podia ser descrita por um piano, melhor só se soluçasse. Teremos dito o suficiente talvez para que alguns destes lugares se sintam enumerados segundo uma ordem difusa, a de ecos sontantes tanto como irrepetíveis. De resto, os que nos ouviram já esqueceram tudo. E é, no fundo, para isso que servem as pessoas, todos os plurais, para esquecer. Pôr um ponto final, não voltar.

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