sexta-feira, dezembro 16, 2016


Nos anos em que isto foi
Eu tinha saído do colégio, sido expulso, fingia ser o puto do Salinger, forçava as tardes e os cadernos ao café,
Uma mulher dentro de um carro passa hoje tantas vezes nessa rua que eu olhava então de cima, durante o dia percebiam-se os gatafunhos a giz no alcatrão, tabuleiro infinito dos putos,
Quem trabalha neste piso contigo?
A caligrafia dela na agenda, a morada tremida e a hora, lembra-me ainda a sensação, como se tivesse deixado umas cuecas no meio das minhas coisas, não consigo pensar em mais nada, havia músicos no prédio, fumavam nas escadas, espreitavam quando subíamos, eu imaginava aquilo que gostariam de fazer contigo,
Houve esse tempo, e então, quando queríamos de alguém um traço impossível de decorar, era preciso fotografá-la junto de outros para não nos denunciarmos, hoje tenho pena de nós por faltar a estes dias qualquer táctica e estratégia; a facilidade pôs fim à nobreza militar destes exercícios
No gabinete, mais tarde, a mão na cara, dois dedos na boca antes do beijo
A primeira vez apenas me disse como, e logo o corpo inteiro: sabia escolher detalhes, inclinar-se o suficiente na frase para que a luz subisse pela roupa, puxando, rompendo a camisa, como se a visse despir-se em frente a um espelho e pudesse ficar no meio sem atrapalhar, tinha conversa de cama em pé, na rua, imagino que com outros homens também, para saber onde quebravam, a mim pareceu-me tenebroso de tão sedutor, podia ter deixado o carro apanhar-me de costas, passar os dias numa cadeira de rodas se te encostasses, te pusesses a recitar essa anatomia toda para o meu transtorno
Na cama às vezes um corpo perde o seu génio inusitado, do princípio vê-se bem o fim, de uma ponta a outra um só fio
Só decorei as mãos dela mais tarde, tinha-se sentado ao piano depois de um bocado a olhá-lo do outro lado da sala, tinha um pedaço de uma melodia, tocou duas vezes à espera que o resto viesse por si, não veio, depois fingiu enfado, não chegara a sentar-se afinal, mas as mãos ficaram, eu conhecia o resto da música, e para mim elas tocaram-na esse dia e outros depois
Podia passar horas com uma chávena nas mãos e à medida que o calor se perdia o olhar ia-se afastando, apurando em mim um sentido de urgência, revia obsessivamente as frases na minha cabeça, até ao ponto de tudo chumbar na inspecção, de preferir não dizer-lhe nada
No fim fiz uma mala com o olhar dela sobre cada peça, primeiro apressado, depois retardando, e passei em minutos da vingança ao desconsolo absoluto, nunca como nesse dia senti uma rua tão pressionada contra as costas
Nunca houve dinheiro, aquele que tínhamos tido noutros tempos e não nos deixava rancorosos, sabíamos pelo menos a diferença que não teria feito
Comprei-te um pequeno órgão, o que foi uma estupidez, passou quase um ano na mala do carro, um dia deixei-o, com o papel de embrulho meio rasgado, num passeio, já o tinha tentado mas assim garanti que o dava à minha imaginação, sempre voltei a esse momento para imaginar quem o levou, quanto tempo até que o tocassem, e só um improviso grosseiro ou uma música até ao fim
Muita gente chora nos comboios mas tu
Eu estava nervoso e ia começar com as perguntas outra vez mas tu já não precisavas
Em que ano foi isto, baralho tudo agora
Estava habituado a ter a cidade inteira só para mim, depois comecei a dividi-la contigo, mesmo que não quisesses saber, havia as ruas a que não ía, eram tuas, vigiava as minhas para garantir que se mantinham seguras, teria gostado de te apanhar nelas, armar uma cena, tinha frases calibradas, mas então já nem eras tu, era eu comigo, para trás, a ira de olho no retrovisor, as recordações a inventarem outras direcções
Fazíamos tanto barulho, os gritos
Agora é tarde, pedimos desculpa se incomodámos os outros hóspedes
Há homens que custam tanto às noites em termos de burocracia antes que passem
Os quadros de merda nas paredes destes hotéis, sempre uns barcos, uns cavalos, ou umas nuvens sobre um prado, tudo veículos, tudo passageiro
Nesse tempo eu trazia um mapa desdobrável no casaco, não que fosse a algum lugar, mas tinha deixado os cadernos, escrevia nele, enchia-o de notas a que raramente regressava, coisas para esquecer no caminho
Depois a coisa acaba com um cigarro, esse tipo de gestos que seguram a boca, ligam estupidamente dentro e fora, cosem-nos, quando não nos restam forças para mais
Não há acasos. E o fim é uma merda, mas não é culpa de ninguém. Pelo menos é o que oiço dizer.

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