segunda-feira, dezembro 12, 2016


Da margem de uma hora reproduzida com o esmero de um guarda que vigia as noites separando com a lanterna as brigas entre a treva e a imaginação no museu para lá e para cá desfiando a hora pelos corredores, chegando a luz à boca dos bustos espalhados e de tantos retratos do passado, afinando a hora como um eco muito antigo que se houvera perdido e, séculos depois, fosse atirado de volta sobre a mesa, dando à costa do quê, uma forçada, inútil divagação, estendia então um troço de corda e na ponta, bem atada, uma tabuinha de ancestral embarcação que ao tocar as águas repuxadas arrancasse delas um soluço, este que foi ao fundo, virou, subiu a escada de caracol a repercutir-se soprando o pó através da biblioteca como se buscasse nos livros a descrição das coisas que viu e não pôde contar, ou os restos de uma lembrança, da tinta recuperou uma língua com bastante líquido nos pulmões, fez crescer um vulto e desamarrou-lhe as velas debaixo de tão pesadas estrelas, e sobre o ar de corte salino retomou as vozes dos homens enchendo de minúcias as saudades que levaram desta terra para o leito do mar.

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