domingo, novembro 27, 2016


Pode sempre dizer muitas mais coisas, vestir e despir os armários todos, deixar as princesas e as aias arrepiadas, as fábulas reviradas de cima abaixo, e fazer do estio um amuo, mas quebrará sempre o espelho que a enfrente, e acabará por fazer como a aranha, que tem para estimação os mesmos insectos que depois come, enche a casa desses trófeus, decora-a de guloseimas pútridas, esquecendo que há outras arquitecturas claras e brilhantes que não a mortalha que tece na sua clausura de monja mortífera, sugiro-lhe voos que, para lá do arrastado compasso com que a morte ajeita os retratos nos seus corredores, saibam traduzir outras inquietações e ritos de passagem, o colibri, por exemplo, enche um segundo de oitenta batidas, poder-se-ia ver nisso uma expansão divina no jeito das asas sublinharem a interioridade do silêncio, movendo-se no compasso cardíaco dos detalhes, mas é claro que a desilusão usa de maus modos, esperava o rei à sua mão, senão, pelo menos, o padre, e contava que se ajoelhasse entre a fumarada dos escombros, mas com os sentidos dominados por essa estética do estômago, só escutava zumbidos, alertas, aquela teia na sua avara expectativa sentia tudo como se lhe mexessem nas intimidades, e porque assim, aos poucos, havia desfigurado este mundo e o outro, o além não tinha como lhe sinalizar, e foi como se a obrigassem a passar fome pela eternidade fora, uma que já nem na verdade tinha.

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