sexta-feira, novembro 25, 2016


Nas vozes eu penso muito, e elas em mim cosem o seu pano. Lugares apontados além do que poderíamos por nós próprios saber. Era tudo mais longe como ser português em séculos de que hoje se orgulham sem ter ideia do que eram feitos os meses, como defendíamos a solidão uns dos outros, nos era difícil falar, a boca magoada de havermos tentado juntar uma simples frase. Se a voz crescesse o suficiente para abafar as tempestades. Além de manchado de luas o meu nome tinha o que julguei ou me convenceram que fosse já a nódoa da morte. Passei dias com as velhas a lavá-lo no rio, e, naquelas águas que me descarnaram os poucos gestos, pude afogá-las. Tive o descanso dos doentes por umas semanas. Mas logo as árvores se quedam no meu caminho, algumas morrem nos próprios braços. Delas fizemos a jangada fartos da terra, do golpe seco dos horizontes. A sede aguça-nos, inventamos tantas coisas, ficamos como um mar roendo a espinha de um peixe, passando noites de cabeça encostada na pedra de fontes obscuras, até que se iluminam bruscamente em nós versos terríveis, memórias alheias que nos bebem a sombra como se nos apagassem do mundo. Fazem-nos duvidar do que fomos até ali. A própria infância parecia já não nos ter visto crescer. Coisas que inventamos e nos conhecem pelo cheiro, nos seguem esfomeando-se. Por isso ninguém volta a casa, e nem o tamanho da volta se sabe. A mim a história do meu país arrastado pelo vento trouxe-me uma luz cansada de andar, uma toda descosida que com as duas mãos veio apalpar-me o primeiro rosto, doce e antigo. E lembrei-me como, na minha terra, havia enterrado um centauro, o último, como o encontrei e ele tinha ainda a pressa no sangue, e estava arfante, já desgastado pela fúria das suas visões. Fizemos-lhe o luto, alguns ameaçaram enterrar-se com ele (nem um o fez). Os outros, viemos buscar o que dele parece já correr-nos também no sangue. Tínhamos agora um idioma como força, um arrepio debaixo da pele das coisas. Nada mais voltaria ao seu gosto literal. A morte percebia-se nitidamente nas vozes, era fácil de ignorar, e o tempo fora ficara limpo, aguardando esse ser educado pelos seus erros.

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