sábado, novembro 12, 2016


Não nos sabemos impedir de falar. Tarde como é em todas as línguas do mundo, nem assim. A idade avança e as horas vagas tornam-se-nos imundas, as mãos deixam de ver, sobre o papel os caminhos têm enrolados os fios de inúteis bebedeiras. Que rua ainda nos comoverá? Já não consigo levar um copo aos lábios, não tenho sabor nem a paciência de inventá-lo; as memórias dão-me náuseas. Também o amor se me tornou pouco natural, o coração sem forma, prefiro ouvir dele os outros contarem. Encanta-me o esforço que fazem, a sua doce e impossível bazófia. Caminhamos sem olhar para nada, as ruas desenraízam-se, engolidas por fantasias podres. Faz uns meses suspirei aqui e volto a encontrá-lo. As mãos de sexo perdi-as nos bolsos, falamos de plantas e estrelas mas na verdade ignoramo-las, somos ínfimos e sórdidos, gostamos de morrer, depois chamamos o último táxi. Cama e secretária são já o resumo perfeito. O sangue atrasa-se, tornou todos os vícios lentos, gastou-os, a vida não anda em mim tão depressa como devia, fica-nos o cansaço da própria dor, como se feita à medida de outros. Deixei a minha pele e não sei como voltar, cai-me mal, aperta, sem fecho, tudo fora do lugar. Nada de combates duros, eu que só quis bater já não sinto que possa, podia deslocar mais que um osso, todo um membro para fora da vida, já me falta tanto da sua sensação. Prossigo nesta ronda de deselegâncias, sentindo a gota da noite afundar-se na minha substância, diluir-me, julgo que me oiço uns passos além. Quando as paixões que tivemos todas perseguem ausências, a nossa estranha carne é feita de recortes de jornais. Sente-se a luz ir-se, e mal se consegue já ler essa notícia que, de qualquer modo, por esta altura te seria sempre indiferente.

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