segunda-feira, novembro 21, 2016


As pragas do Egipto em ti, doente de teres bebido do rio pontuado de corpos como nenúfares, fosse eu o outro tempo, um voltando atrás, impregnado de ira, deus em doses pessoais como o veneno ou a atitude honesta de virar-se contra si mesmo. O que há a fazer com essa boca a estudar-nos o ouvido, a dizer-nos a nossa história num além-ritmo de sonho, fremindo a cada palpitação, enredando-se, um sabor começado e nunca acabado, de flor mais velha ainda por decidir-se sobre a sua estação, no ressumbrar de cinzas, entre a sombra e o nome das coisas, esse pulso sísmico revendo um tempo com gente que ainda existisse, a pôr a cabeça na linha, só dificilmente nalguma ordem, cada pedra num monte, a pedra selvagem humilhando a dos templos, fazendo-os vir abaixo, assumir uma convicção letal contra o risco de perder a razão, a tal ponto que seja preciso montar guarda na fronteira da realidade, assistir às migrações dos pássaros, seguir rastros, saber do contágio das sementes entre flores de vaso e as que neles fazem harakiri, por abelhas sem experiência. Ainda és pouco mais que a mesa, escreves separado, a mão vê mal, troca a lente, puxa o sol, faz um buraco na folha, e a demência toma licença das tuas palavras, esta gente... Tomei interesse, montei um posto avançado, fui ver, espreitei dos lados todos, quebrei a casca, vi a coisa quieta julgando-se a sós, vi-a metamorfoseada, as patinhas espalhadas pelo chão, as asas aos cantos dos lábios, uma dieta de moscas, a ver vídeos na internet, vi-a atravessando a rua, apertando a bota na esquina do planeta, havia um balanço, um horror e beleza travestidos, mas nada que justificasse, nenhumas atenuantes, tudo perdido no mesmo passo fosse qual fosse a direcção. Fui levando as miragens para o laboratório, vi no microscópio e no telescópio, acabei com uns punhados de areia, esses que cada um leva e traz no tráfico deste imenso deserto. No meu relatório concluía apenas: quase ninguém existe. E se o repito é porque da primeira vez ainda parecia cedo, foi dado mais como um bestial avanço lírico, e o lado terrível ficou sob o tapete do espanto, como se tivesse passado outro anjo para limpar o esterco do homem, mas nesse verso era como se deus houvesse sido escutado atrás de portas, desse verso eu quis fazer uma pá, abrir a terra, arrancar as raízes até aos astros, e enterrar meio mundo, não, na verdade, era preciso muito mais. Ia ser épico, e eu não sabia como. Fui ler, era preciso ter uma ideia como foi que, um a um, os génios haviam chegado todos à mesma conclusão, e de algum modo estoiravam os miolos, procuravam apagar o mundo como se bastasse apagar a luz. No escuro tudo só piorou. Tudo mais se imitava, cada uivo de dor, o mais everest logo era trepado, puxado até cá abaixo e feito eco, atirado numa composição barroca, empurrado para os teatros e depois adaptado a correr ao cinema, muitos efeitos especiais em cima, e pipocas. Bolsos fundos, truques com espelhos, ilusões de perspectiva, a própria literatura feita um cemitério para perder a vista, e o sangue adaptara-se, já preferia o que era de natureza mais amarga, muito perto de se tornar também frio, e não havia mais gosto nas coisas senão sair para o meio do mundo, deixar o monólogo interior, como dizia o Michaux, e bater, não deixar passar um, caralhos ta fodam, anda cá, até os pôr doidos em roda, e olhando pelo reflexo do céu ver outras clareiras, ir saber, afinal, quantos somos, o que resta vivo, quem vai gastar os últimos cartuchos?

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