domingo, outubro 09, 2016


De bruços na corrente, para lá do reflexo, da língua feita um guizo, ouvi um nome fresco e nada, ninguém à volta, um cabelo perdido da noite, deslizando num esboço do vento, e foi mostrando o caminho até ao país das distâncias. Frio, foi também isso o que me fez. Um abalo na carne instante, um interruptor no sangue, como o domínio sobre antigos venenos: apago e acendo-me, leio de novo o silêncio, traz uma década a mais desde a tarde anterior. Continua mais fundo do que essas páginas inertes, embaçadas do próprio respiro, cerimoniosas e quotidianas como funerais, deixando que da História se levantem odores arrepiantes. De há um tempo, deste lado, o vento traz a boca cheia de cinzas. Abati uma árvore longe de todas as outras, ao cair produziu um verso seco, gélido. Lembrou-me um poeta desses que trazemos de cor, construindo na memória um talismã, firme, rasando a solidão numa ofensa ao mundo. Segredávamos a uma pedra, achando-lhe a mecânica, antes de rachar seja o que for, tínhamos já o tempo consertado, abrindo um rasto para a memória de um futuro que é a nossa única ambição. Apago e espero quem me apagará. A nossa é uma época nomeando ausências. A morte foi-lhes dita e não fizeram outra coisa além de repeti-la, rastreiam-na na carta de despedida com que um dos últimos aboliu o idioma em que ouvira a morte perder o sentido. Antes de matar-se amaldiçoou os dons naturais, viu a aliança quebrada entre os homens, e dessa visão compôs um eco que viria a beber-nos as noites. Deixou um curso para a voz muito além de si, um silêncio ouvindo-se, espelho longo como um rio calando todos os reflexos, levando a um infindável estertor. A beleza dali em diante adequava-se a um golpe rápido que nos cortasse a cabeça. Além de apodrecer, que outros caminhos? Se mesmo para conhecer o fim do mundo não se pode senão avançar. Avancemos. Seja nosso um olhar sobre o mundo da perspectiva do inferno.

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