quinta-feira, setembro 15, 2016


Que sabem os olhos de tudo o que nos falta? Sinais de outra natureza, intuída, sombras restituindo-se corpos, passos vivos sobre esta terra de ossos. Alguém começa por dizer a própria boca, vai fazê-la com as mãos, desenha, arquitecta o sopro e, se inspira, um fruto ascende por um caule seco, sofre a flor e chega ao ar antes de cuspir as próprias sementes, a voz é em si mesma uma história, de se fazer ouvir cerca um timbre anterior, dialoga através da memória das coisas deixadas, o próprio ar tremido, esvaziado pelo eco, a luz caída nuns ombros, o olhar de tantas coisas buscando de um modo infindável, força o escuro, que aos poucos lhe cai dentro, cega-nos contando os anos, olhos separados, em frascos, navios no fundo de um copo de mar, com o que nos resta arrastamo-nos, de ouvido reconstruímos iluminações, paisagens soberbas, as galerias dos nossos pintores refeitas com os barulhos, o que se move e desloca o escuro, os ratos no sótão, a casa respirando pior, de tudo o coração decora pedaços, cola, armadilha, dá caça à sua imprevista grandeza.

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