domingo, setembro 25, 2016


Mesmo que o nome falhe, me desfaça de espanto a voz, o que há de mortal a cada instante fere igual. Acordo e dou a volta à casa a beber os últimos copos do sonho, a reconstrução talvez comece por uma nódoa na camisa, mais sombria aos poucos, até que as próprias horas estremeçam, delas levantem os pássaros, um buraco de bala assobie calmo tomando o seu caminho através da carne, sinais de fumo, a passagem de mim a um estranho aberta. Mordido pelos mosquitos da lua, tenho ainda uma tontura e vou num ritmado pingo de sangue por arrozais a dizer alto o sonho para que a realidade não me siga, guio-me pela vaga notícia de que tive uma filha nalgum futuro amoroso, vim falar-lhe, vejo-a do outro lado de tantas noites sem fundo, enumerações, desastres, não vou lembrar-me de nada. Nesses tempos, deitados, era comum chover-nos à cabeceira, tínhamos lido coisas tão melhores sobre o desejo, dividíamos corpos sob luzes cada vez mais fracas, notei que se pedires noutra língua talvez nesta seja possível ouvir algo mais do que não. Tudo se diz do amor e da morte, mas eu vi-os juntos e senti o horror de se ter ao lado uma mulher das que da cama que lhes abrimos fazem uma jangada. A tua mãe era diferente, e amei-a até à última palavra que me viu de pé. Outras coisas escritas adquiriram uma súbita claridade, achava a manhã horas mais cedo, já quase não dormia, mas vigiava-te o sono, deitava pedaços de pão aos peixes e media pelo crescimento deles a profundidade da tua imaginação.

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